O ESTIGMA DO SEXO

TRANSAS & TRAMAS

Giselda Laporta Nicolelis
Ilustraes: Roberto Barbosa
9a. EDIO

ATUAL
EDITORA

 Giselda Laporta Nicolelis, 1994.
Copyright desta edio:
SARAIVA S.A. Livreiros Editores, So Paulo, 2000.
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Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Nicolelis, Giselda Laporta.
O estigma do sexo / Giselda Laporta Nicolelis; ilustraes Roberto Barbosa.  So Paulo : Atual, 1994.  (Srie transas & tramas)
Suplementado por roteiro de leitura.
ISBN 85-7056-635-2
1. Literatura infanto-juvenil I. Barbosa, Roberto. II. Ttulo. III. Srie.

94-1498                                                                        CDD-028.5

ndices para catlogo sistemtico:
1. Literatura infanto-juvenil 028.5
2. Literatura juvenil 028.5
Srie Transas & Tramas
Editor: Henrique Flix
Assistente editorial: Shirley Gomes
Preparao de texto: No G. Ribeiro/Paulo S
Gerente de produo editorial: Cludio Espsito Godoy
Reviso: Maria Luiza X. Souto/Maria Ceclia F. Vannucchi
Editorao eletrnica: Silvia Regina E. Almeida/Virgnia S. Arajo
Chefe de arte/diagramao: Tania Ferreira de Abreu
Assistentes de arte: Marcos Puntel de Oliveira/Alexandre L. Santos
Produo grfica: Antonio Cabello Q. Filho / Jos Rogerio L. de Simone
Maurcio T. de Moraes
Fotolito: Binhos/STAP
Composio: Graphbox
Roteiro de leitura: Ronaldo Antonelli
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Central de atendimento ao professor: (0xx11) 3613-3030



Eu te chamarei de amigo
porque amigos so irmos
que se escolhem pela vida...


 Dra. Ktia Regina Cristfaro 
titular da Delegacia de Defesa da Mulher,
Santo Amaro, 8, So Paulo ,
cuja colaborao foi essencial
na elaborao deste livro.

SUMARIO
Lindaiane
Ivanira
Zuleide
Jos Francisco
Lindaiane & Ivanira
Seis meses depois



Lindaiane
D
esceu do nibus, endereo na mo. A casa que procurava ficava bem ali atrs do shopping, no havia erro. Achou o bairro movimentado, com ruas arborizadas. Um bom 
lugar para se viver, pensou. No demorou muito, localizou a rua particular, que comeava bem no meio da avenida.
A vila tinha oito casas e uma praa de manobras, onde alguns carros estavam estacionados. Tocou a campainha na nmero 7, uma casa pouco maior do que as outras; o 
jardim florido dava gosto de se ver.
Atendeu uma senhora idosa, de uns 70 anos, mais ou menos.
 Boa tarde  disse ela.  Voc  a Lindaiane?
         Sou, sim, senhora  respondeu. ( verdade que marcara hora pelo telefone, mas... e se, em vez dela, fosse outra pessoa, por coincidncia?)
        Faa o favor de entrar.  A mulher abriu o portozinho.  A dona Carmem est esperando voc.
Aspirou fundo o ar perfumado e entrou. Logo de incio teve uma boa impresso: num canto da sala, o velho piano, coberto por uma toalha de croch. Bem  frente, um 
carrilho parecia encar-la com seus grandes nmeros, o pndulo batendo cadenciado, sabe-se l h quantos anos...
Sentada no sof, tambm coberto por toalhas de croch, estava dona Carmem. Empertigada, o cabelo todo branco e os olhos vivos atrs dos culos. Tinha um rosto to 
rosado e sorridente que Lindaiane gostou dela logo  primeira vista.
 Aproxime-se, por favor.  A senhora fez um gesto com a mo.
Lindaiane foi at ela:
         Prazer em conhec-la, vim por causa do emprego.
         Claro, minha querida, sente-se.
Ficaram uma de frente para a outra. Dona Carmem tinha uma expresso de curiosidade no rosto:
 Voc me foi muito recomendada por uma amiga, de quem sua me, a Jussara, foi enfermeira. O trabalho aqui  simples: quero que voc me faa companhia, saia comigo 
a passeio ou quando eu tiver algum compromisso. Mas me diga, com sinceridade, o que fez uma garota to bonita quanto voc resolver trabalhar com uma velha como eu?
Lindaiane ficou um instante calada. Como era perspicaz a velha senhora. Deveria dizer-lhe o motivo real ou apenas dar uma desculpa qualquer? Que era confortvel 
trabalhar assim, dentro de casa, sem horrios to rgidos, relgios de ponto, essas coisas. Que at poderia estudar, fazer algum trabalho escolar nas horas vagas. 
Mas tambm poderia dizer a verdade.
         A senhora quer que eu fale francamente?
         Claro!  Dona Carmem empertigou-se ainda mais.  Alis, eu sou uma pessoa que gosta muito da verdade, doa a quem doer.
        Est bem  concordou Lindaiane.  Se a senhora prefere assim. Eu vou lhe contar por que preferi vir trabalhar aqui.
        Um minutinho s  disse a outra, virando-se para a mulher que abrira a porta.  Aparecida, me faa um favor, passe um cafezinho pra gente, sim?
         pra j.  Aparecida foi em direo  cozinha.
        Est comigo h trinta anos  disse dona Carmem.  J no  minha empregada,  minha irm. Mas tambm est velha como eu, entende? Gosto muito de sair, ir 
ao banco, ao shopping aqui pertinho. Por isso resolvi contratar algum mais jovem para me acompanhar... mas voc ia
dizendo...
         Tenho tido muitos problemas nos lugares onde trabalhei  disse Lindaiane meio sem jeito.
         Que tipo de problemas? Cantadas?  Os olhos da velha senhora sorriram por trs dos culos.
        Puxa, dona Carmem, a senhora  terrvel mesmo!
        No preciso ser nenhuma feiticeira para imaginar o quanto uma menina bonita como voc deve mexer com seus colegas ou chefes homens... da a ser cantada 
 s um pulo.
         Se fosse apenas isso  suspirou Lindaiane.   muito mais. No ltimo emprego que tive, por exemplo, aconteceu uma coisa horrvel, no gosto nem de lembrar...
        Lembrar s vezes ajuda a exorcizar nossos demnios  disse dona Carmem.  Eu tambm tenho os meus. s vezes eu os encaro de frente; s assim eles me do 
alguma paz.
         Nunca contei isso a ningum, quer dizer, s ao Jos Francisco.
        Ele  seu namorado?
        No  sorriu Lindaiane.   um grande amigo; sabe aquele rapaz pra quem a gente pode se abrir, contar todas as dvidas, assim como um irmo muito fiel?
         Sei  disse dona Carmem.  Ento eu talvez possa ser to merecedora quanto ele da sua confiana. Nem mesmo  sua me voc contou? Por qu?
Lindaiane mexeu-se pouco  vontade no sof:
         Como a senhora sabe, minha me  enfermeira e trabalha agora num hospital pblico do Estado. Quando volta pra casa, depois de horas e horas de servio, 
est arrasada. Ela separou-se do meu pai, que  alcolatra. Agentou tudo o que pde, at que ele saiu de casa por
vontade prpria. Agora perambula por a, dormindo embaixo dos viadutos... Eu quis poup-la de mais aborrecimentos.
        Eu compreendo. Voc tem mais irmos?
         S um irmo de 12 anos, o Lcio. Ele no d trabalho, se vira sozinho, quase nem v a me. Mas o que ela pode fazer? Praticamente sustenta a casa sozinha, 
eu tento sempre ficar nos empregos, mas...
        Ento se acalme e me conte o que aconteceu no seu ltimo emprego, que voc achou to horrvel assim.
Aparecida vinha voltando com o caf cheiroso, coado na hora. Dona Carmem perguntou:
        Voc se importa, Lindaiane, que a Aparecida oua tambm a histria? H muito tempo que no temos mais segredos urna para a outra.
         Claro que no!  disse a garota, que havia simpatizado muito com a velha empregada.
Aparecida, toda lpida, sentou-se ao lado da patroa, e ficaram as duas  espera. Por que no?, pensou Lindaiane. Pelo menos serviria, como dissera dona Carmem, para 
exorcizar seus demnios. Como se estivesse diante de duas psiquiatras formadas pela escola da vida.
 Eu estava desempregada, precisava de um novo emprego  comeou Lindaiane.  Mame, apesar de trabalhar praticamente o tempo todo, quase sem dormir, para ganhar 
um pouco mais, no estava dando conta sozinha. O Lcio teve um problema de sade, graas a Deus
curvel, mas os remdios eram caros. Ento, um dia, recortei um anncio de jornal que pedia uma recepcionista com boa aparncia. E, no dia seguinte, me apresentei 
no tal escritrio.
A firma era pequena, apenas dois scios e uma secretria. Trabalhavam tambm ali uma copeira, que alm de servir caf fazia a limpeza das salas, e um garoto office-boy. 
Logo que cheguei, a secretria me olhou de alto a baixo e foi logo perguntando se eu tinha alguma experincia. Eu disse que sim, havia trabalhado em vrios escritrios 
antes, ainda que por pouco tempo. Ento ela perguntou por que sara dos empregos anteriores. Inventei uma desculpa qualquer, de horrio de estudos, cuidar do meu 
irmo, etc.
 Ento ela contratou voc  interrompeu dona Carmem, muito interessada, enquanto Aparecida nem piscava. Ela adorava uma histria.
         No, no foi bem assim  disse Lindaiane.  Ela me introduziu na sala maior onde ficavam os dois scios, o doutor Roberto e o doutor Ricardo. Descobri 
que os dois eram irmos.
        Ento?  incentivou dona Carmem.
        Ento... os dois fizeram uma entrevista comigo muito superficial: se eu sabia escrever  mquina, se tinha prtica em atender o pblico, e, antes de dez 
minutos de papo, acabei contratada. O doutor Roberto ainda comentou quando estava saindo: "Continue bonita, hein? Que isso vai atrair mais clientela aqui para o 
escritrio, garota!".
        Uma gracinha ele, no?  falou Aparecida.
        Foi o que eu pensei  respondeu Lindaiane.  Mas, como eu disse, estava precisando trabalhar urgentemente. Achei melhor dar um tempo e aceitei o emprego.
 Voc quer mais um cafezinho, minha filha?  interrompeu dona Carmem.
        Acho bom, sim.  Lindaiane tomou outro caf, se ajeitou melhor na poltrona.   difcil pra mim at hoje falar nisso...
        V com calma  disse a velha senhora.  Temos todo o tempo do mundo.
Lindaiane respirou fundo:
 Comecei a trabalhar no dia seguinte. Logo fiz amizade com a Jeni, a copeira, excelente pessoa, alegre e trabalhadora. O office-boy tambm ficou meu amigo. Ele 
tinha um nome engraado: Allyson. Disse que o pai dele ouvira o nome em algum lugar e gostara muito.
Dona Carmem baixou um pouco os culos:
        Estou achando que voc est fugindo do assunto, com todos esses detalhes, menina. No tenha receio, ningum aqui vai julgar voc.
        No  isso, no  disse Lindaiane.   que  muito importante a Jeni, nessa histria. Logo depois que eu entrei no escritrio, ela descobriu que estava 
grvida. Ficou apavorada porque achou que seria mandada embora.
        U, por qu?  Aparecida arregalou os olhos, surpresa.  O que os patres tinham com isso?
        Ora, Aparecida  disse dona Carmem.  Voc nunca ouviu falar daquela lei que d  mulher quatro meses de licena remunerada aps o parto? A maioria dos 
patres no quer arcar com isso.
        Ento de que adiantou a lei?  rebateu Aparecida,
inconformada.
        No  assim to simples  explicou dona Carmem.  A cada avano da lei, principalmente trabalhista, corresponde uma reao da comunidade. As pessoas conscientes 
procuram se adaptar, mas sempre h aquelas que querem burlar a lei. Nesse caso, o empregado pode recorrer  Justia do Trabalho, para garantir os seus direitos...
        Foi esse o caso da Jeni, que tinha razo em se preocupar  continuou Lindaiane , porque um dia passou mal no escritrio, os irmos descobriram a sua gravidez 
e a demitiram na hora. S que, antes de ir embora, ela me contou, toda chorosa, uma histria de estarrecer...
        O qu?  Aparecida at mudou de posio no sof. Aquela histria estava melhor do que a novela das seis, que andava uma porcaria.
 Ela me contou  desabafou Lindaiane  que ouvira os dois irmos, o doutor Roberto e o doutor Ricardo, fazendo uma aposta: ganhava um jantar quem primeiro me levasse 
para a cama...
As duas mulheres ficaram em silncio. No fizeram o menor comentrio. Mas a expresso do rosto delas denotava o efeito causado por aquela revelao.
Lindaiane continuou:
 Fiquei chocada, claro, mas o que podia fazer? Precisava tanto do emprego! E podia at ser mentira, sei l, uma inveno da Jeni, na hora da raiva. S que, logo 
na semana seguinte...
 Eles resolveram se pr em ao, para ver quem ganharia a aposta; mas que coisa mais velha!  comentou dona Carmem.
         Isso mesmo. O doutor Roberto mandou me chamar e disse que Janete, a secretria, tinha de sair mais cedo para ir ao mdico. E se eu podia ficar um pouco 
mais para escrever umas cartas para ele. Eu estava ressabiada, mas no tinha muita escolha. Saiu todo mundo e ficamos os dois
sozinhos l no escritrio. Assim que eu sentei na frente da mquina, ele disse:

        Levante da, Lindaiane, voc  bonita demais para isso. Vamos sair para jantar e depois nos divertir por a...
        Puxa, ele foi direto desse jeito!?  espantou-se dona Carmem.
        Mais direto impossvel  concordou Lindaiane.  Mesmo prevenida, fiquei espantada. E respondi: "O senhor est enganado a meu respeito. No sou desse tipo".
        E ele?  Quem estava mais interessada agora era a Aparecida.
Lindaiane respirou fundo:
 Ele disse que no suportava essas piranhas como eu, loucas para subir na vida, que, quando tinham a oportunidade, bancavam as santinhas... e por a... Me ofendeu 
de tudo o que ele achou que tinha direito.
        Mas que cafajeste!  explodiu dona Carmem.  Nivela todas as mulheres por baixo e ainda acha que tem razo.
        O pior foi o que aconteceu em seguida  continuou Lindaiane.  Perdi as estribeiras e disse o que a Jeni havia me contado. Nem bem acabei de falar, entrou 
o doutor Ricardo, que, para piorar a situao, confirmou a maldita aposta. Sa de l chorando pela rua e nunca mais voltei, nem para receber os dias que havia trabalhado.
Lindaiane ficou em silncio e as duas velhas senhoras respeitaram isso. Aps alguns instantes, dona Carmem falou:
 J passou, minha filha, aqui voc ter tranqilidade, pelo menos por uns tempos. Porque voc no pode fugir eternamente, entende?
        Mas eu no estou fugindo  disse a garota.
        Est sim, minha filha. Est fugindo da sua realidade e da realidade que existe a fora. Voc vai ter de aprender a administrar tudo isso, como os jovens 
costumam dizer, numa boa. Seno, como vai ser? Vai se esconder para o resto da vida?
Lindaiane sorriu meio sem graa:
        No, senhora.
        Muito bem. A gente fala disso em outra ocasio. Agora vamos tomar um lanche e depois voc vai para a sua escola. Vamos tambm combinar um horrio que facilite 
tanto a sua vida quanto a minha.
Mais tarde, j na escola, Lindaiane reuniu-se com os amigos: Ivanira, Zuleide e Jos Francisco. Vizinhos desde a infncia, tinham crescido juntos. E freqentavam 
a mesma escola pblica, j no terceiro colegial. Se tudo corresse bem, no final do ano completariam o segundo grau.
Lindaiane contou toda animada que estava de emprego novo. Zuleide e Jos Francisco ficaram contentes, porm Ivanira estava meio calada, pensativa.
        Voc t legal?  perguntou Zuleide.
A outra se esquivou:
        T legal, sim, no tenho nada, no.
        Olha que tem  disse Zuleide.  Te conheo muito bem.
        Impresso sua.
Zuleide se afastou para ir falar com um professor, em cuja matria estava indo mal. Lindaiane ento insistiu:
 Eu tambm estou te achando meio triste. Que foi, brigou com o Raul? Eta namoro complicado!
Ivanira suspirou fundo:
 No briguei ainda, mas no sei quanto tempo isso vai durar...
        Por qu?  quis saber Jos Francisco, como sempre enturmado com as garotas.
         difcil at de explicar  disse Ivanira.  Vocs conhecem ele,  superlegal, inteligente, esforado. Mas  to ciumento que chega a me dar medo...
 Voc tem razo, isso pode estragar tudo  falou Jos Francisco.  Cime de mais vira doena.
        Se j no estragou  concordou Ivanira.  Vou levando at quando der... ai!  A garota levou a mo ao rosto.
        Que foi?  perguntou Lindaiane.
        Este maldito dente do siso. Estou tratando h mais de um ms. Imagine s que o bendito dente tem trs razes que nasceram coladas umas s outras. Nem que 
o dentista fosse milagroso conseguiria tratar os canais. Tenho de voltar l amanh para ele tentar mumificar os nervos...
        No doutor Lauro, a que horas?  interrompeu Jos Francisco.
        Duas e meia, pedi licena l no consultrio; o doutor Otvio  legal, no vai ter problema. Homem bom est ali. Ele  exigente, mas  sempre educado e muito 
respeitador. Todo mundo gosta dele, tanto os clientes quanto os funcionrios.
        Patro legal  outra coisa  disse o outro.  Tambm tenho hora marcada no dentista, s quatro, e  coisa rpida. A gente pode voltar junto.
        Combinado.
Zuleide j vinha voltando, desanimada:
 T mal, gente, este ano  capaz de melar.
        Voc precisa estudar mais, n, camaradinha?  interveio Jos Francisco, muito de leve.
        Gracinha!  Zuleide enfezou de vez.  Pensa que sou como voc que trabalha em loja de painho que me deixa estudar a qualquer hora? Dou um duro danado l 
no shopping, maninho... o que aquelas peruas me encarnam...
        Deixe disso  riu o rapaz.  Voc adora aquela butique! Mais paquera os gatos do que atende as madames. Qual  o seu novo amor, hein?
Zuleide at revirou os olhos:
 Geeente,  um gatssimo alto, moreno, faris verdes, conversvel importado, ltimo tipo; s no sei a marca e nem preciso...
Lindaiane teve um acesso de riso:
 Pra a, voc t descrevendo o cara ou o carro?
 Os dois  suspirou Zuleide.  De pobre e feia chega eu. S aceito gato lindo e rico.
        Voc no  feia coisa nenhuma  agradou Jos Francisco.  Sabe que eu te acho at bem ajeitadinha?
        E a tua opinio vale alguma coisa, vale? Pelo que sei voc nunca namorou, nunca se apaixonou de verdade. Voc por enquanto s tem amigas... t certa?
        Tambm no precisa ofender, n, Zu?  disse o rapaz, amuado.
 E quem  que est te ofendendo, meu amor? S estou falando que de gata voc entende menos que a minha me de motocicleta, sacou?
O rapaz ainda ia replicar, mas o sinal soou naquele instante e os quatro se dirigiram para a classe. A noite prometia. As matrias eram as mais difceis do currculo. 
E o professor uma fera que no brincava em servio.
No final do perodo, a maioria estava caindo de sono. Pudera! Trabalhar o dia todo e ainda estudar  noite. No era brincadeira. Saam da escola meio dormindo. Como 
de costume, Jos Francisco acompanhou as garotas, pois todos moravam na mesma rua. Antes de se despedir, falou:
 Combinado ento, Ivanira? Voc me espera l no consultrio, t? Na volta a gente pode at tomar um lanche antes da escola.























Ivanira
E
nquanto esperava o amigo terminar o tratamento dentrio, Ivanira ficou lendo umas revistas, na sala de espera do consultrio. Que diabo, por que eram sempre to 
velhas essas revistas? Contavam-se nos dedos os consultrios onde as revistas eram atuais  onde ela trabalhava por exemplo. At nisso dr. Otvio era atencioso.
Demorou um pouco mas, finalmente, o amigo foi liberado pelo dentista. Saram, ambos de boca torta da anestesia, rindo um do outro.
 Vamos num lanche?  convidou Jos Francisco.
        Assim mesmo de boca torta?  riu Ivanira.  Se duvidar, a gente come  a prpria lngua.
        T morrendo de fome  disse o garoto.  Eu arrisco. E voc?
        T legal, vamos nessa. Mas olha que t difcil de mastigar.
Entraram numa lanchonete, pediram sanduches, refrigerantes; arriscaram at uma batata frita. Estavam no maior papo quando, de repente, uma voz falou atrs de Ivanira:
  assim que voc trabalha, sua safada?
Espantado, Jos Francisco levantou a cabea. Deu com Raul, o namorado da colega, que conhecia l do bairro. Mas um nunca fora muito com a cara do outro.
Ivanira, por sua vez, reconhecera a voz, mas no mexera um msculo; talvez de susto, talvez de medo. O rapaz, parecendo perturbado, rodeou a mesa e ficou bem em 
frente da garota. Repetiu a pergunta:
  assim que voc trabalha, sua safada? Agora deu pra circular sozinha com essa bicha? Podia ter mais criatividade pelo menos para me passar para trs.
Ivanira ia responder, porm Jos Francisco foi mais rpido:
 Pirou, cara? Deixe a garota em paz; voc t cansado de saber que somos apenas bons amigos, desde a...
No conseguiu terminar a frase. Raul levantou-o pela gola e deu-lhe um soco to violento que Jos Francisco voou, caindo estatelado mais adiante.
Ivanira pulou da cadeira gritando:
        Seu maluco, como  que voc faz uma coisa dessas? Ele  s meu amigo!  Ato contnuo, correu at o lugar onde Jos Francisco tentava se levantar, ainda 
entontecido pelo soco.
        Voc est bem, Chiquinho?
        Estou  disse o rapaz; mas o lbio sangrava muito.
        T bem coisa nenhuma  soluou Ivanira.  Voc t machucado. Venha, vou lev-lo a um pronto-socorro.
Raul se aproximou para ver o estrago que fizera. Ivanira enfrentou-o, dessa vez sem medo:
 No se aproxime de ns, seu bruto! Suma da minha frente. Nunca mais quero v-lo, entendeu? Voc enlouqueceu de vez.
Auxiliado pela amiga, Jos Francisco conseguiu se levantar. O gerente da lanchonete j interpelava Raul, ameaando chamar a polcia. Raul finalmente se retirou. 
Um dos garons trouxe gelo e toalha. Ivanira tentou estancar o sangue, que brotava sem cessar da boca do amigo. De l foram a um pronto-socorro municipal, onde o 
rapaz levou trs pontos. Ivanira no se conformava:
 No acredito, um estudante de Medicina agindo dessa forma, como um brbaro. Ele devia curar pessoas, no feri-las.
Jos Francisco, porm, tinha outra preocupao:
        Estou com medo por voc, amiga, esse cara  louco. Tava cansado de ver a gente junto, acho que ele pirou mesmo. V devagar com ele, t?
        Devagar coisa nenhuma!  desabafou a garota.  No quero mais ver a cara desse sujeito na minha frente. Eu j estava querendo terminar o namoro faz tempo...
        Oua o meu conselho  continuou o rapaz , v devagar. Tenho medo de que ele comece a te perseguir...
        Esquea, vamos cuidar de voc  disse a amiga. Felizmente, no estavam muito longe de casa, alguns minutos apenas de nibus. Daria at para ir a p.
Quando chegaram na casa de Jos Francisco, a me dele tomou o maior susto, ao ver o filho com o lbio todo inchado, com pontos. O rapaz foi discreto, disse que havia 
escorregado e batido a boca no cho.
 Quero isso muito bem explicado, Chico  disse a me, que no era boba nem nada.
O rapaz deu uma piscada para ela, uma velha cumplicidade entre ambos:
 Depois eu conto tudo, t legal, me? Agora me arranje um pouco de gelo, por favor.
Ivanira ainda ficou um tempo conversando com o amigo, depois foi para casa. Estava na maior fossa. Nunca imaginara que Raul chegasse a tal ponto. E ainda mais em 
relao ao seu amigo mais querido. Raul fora grosseiro e covarde. Nem parecia o garoto gentil do incio do namoro.
Com toda essa confuso, perdeu a hora da escola. Chegou l, j estavam na terceira aula. Esgueirou-se para dentro da classe. Zuleide fez sinal de que queria falar 
com ela depois. A cena da lanchonete martelava-lhe a cabea, no conseguia pensar em outra coisa.
Mais tarde, no intervalo, Zuleide veio toda emperiquitada para o lado dela:
        Tenho uma notcia daquelas, V!
        No me chame de V  disse Ivanira irritada.  Voc sabe muito bem o meu nome.
        T legal, I-va-ni-ra  a outra soletrou.  T legal assim?
        Fale de uma vez, qual foi o periquito verde que voc viu?
        Sabe, l no shopping onde eu trabalho  despejou Zuleide  sempre aparecem uns carinhas diferentes, artistas, essas coisas...
        Da?  perguntou Ivanira, dando graas a Deus que a dor de dente passara de vez. Provavelmente a tal mumificao dos nervos estava dando certo.
        Da...  Zuleide fez suspense  que hoje,  tarde, pintou um cara l na loja, comprou uma cala e...
 E...  Ivanira j estava perdendo a pacincia. Zuleide com essas frescuras de shopping, roupa de griffe; ser que no tinha mais nada dentro da cabea?
        Sei o que voc est pensando  disse a outra.  Mas desta vez  quente, amiga. O cara que comprou a tal cala  fotgrafo, tem um estdio superbacana e...
        Ah, ? Voc j foi l para ver?
        Ele me disse, u  falou Zuleide meio sem graa.  Para que ele precisaria mentir?
 Desembuche de uma vez que o intervalo logo termina.
 Pois ; ele deve ser um fotgrafo famoso, eu acho, porque disse que eu levo o maior jeito para top model. E s precisava ter um assim... como  mesmo o nome? Deixa 
pra l, um lbum com fotos bem-feitas para mostrar nas agncias de modelo e conseguir um contrato.
        Sei; e voc acreditou nisso.
        Claro que acreditei! Sempre disse que ia ser famosa, um dia, modelo de capa de revista. T a a minha oportunidade.
        Cresce, Zuleide!  Ivanira quase gritou.  Aparece um cara que voc nem conhece, inventa um monte de baboseira e voc cai que nem uma idiota...
        T achando que  inveja sua  disse Zuleide.  Nem devia ter te contado.
        Eu quero estudar Letras, esqueceu?  retrucou Ivanira, tentando ser paciente.  Nunca me interessou ser modelo. S quero saber o que voc pretende fazer...
        Tirar as fotos, claro!
        No estdio dele.
        , no estdio dele. Onde podia ser? Na farmcia da esquina?
        Um cara que voc nem conhece, mal sabe o nome...
        T aqui o carto, minha santa; pensa que sou burra?
        Penso, sim. Sua me sabe disso?


        Deixe a me fora disso  protestou Zuleide.  Vou te dizer o que vou fazer, vou tirar as tais fotos, que ele disse que vai cobrar bem baratinho; depois 
fazer o maldito lbum ou qualquer outro nome que tenha e  bum!  decolar para a fama e a fortuna...
        Coitada, pirou  disse Ivanira.
        Falando em pirar  comentou Zuleide , cad o Chiquinho, que no veio  aula hoje? T doente?
        Mais ou menos. Levou um soco do Raul...
Zuleide arregalou os olhos:
        Do Raul, ts brincando?!
 T no; a gente voltou do dentista, tava tomando lanche, o Raul achou que me pegou no flagra; ofendeu o Jos Francisco e ainda nocauteou ele. Levou trs pontos 
na boca, o coitado.
 Virgem Maria! E como  que voc vai sair dessa?
 J sa  disse Ivanira.  Dei o fora nele l mesmo. Ele que no me aparea mais. No quero ver o Raul nem coberto de ouro.
Nesse instante, chegou a Lindaiane que ainda ouviu o fim da histria e quis saber o comeo. Ficou to chocada quanto Zuleide. E ainda piorou a coisa porque contou 
que dera uma espiada l fora e vira na porta da escola, com ar de poucos amigos, justamente Raul. E ele nem a cumprimentara.
A sineta tocou, terminando o intervalo. Entraram novamente para a aula, cada uma matutando o que fariam na sada.
Nem conseguiram prestar ateno ao professor falando l na frente. Trocaram olhares, bilhetinhos, sinais... Ivanira estava preocupada. O que aquele doido ainda queria 
com ela? Pedir desculpas, reatar o namoro? Minha nossa, pensou, a gente comea um relacionamento, nem imagina que vai pegar um cara estourado, que soca o melhor 
amigo, como se fosse nosso dono e senhor. Que droga, p!
Quando a sineta tocou, as trs se levantaram ao mesmo tempo. Formaram uma rodinha, no corredor, como estrategistas que estivessem planejando uma batalha. L fora 
estava Raul, e elas no tinham a menor idia de como ele iria se comportar.
 A gente sai as trs juntas  disse Lindaiane.  E seja o que Deus quiser.
No aconteceu nada. Raul agora estava na esquina da escola, mas no se aproximou. As amigas, por sua vez, quase correram em direo s suas casas...
Isso foi apenas o comeo. Por onde andava, Ivanira sentia os olhos de Raul sobre ela. Tornou-se uma obsesso, como se fosse observada em todos os instantes. Quando 
saa do consultrio, da escola, de casa, do dentista. Parecia que o rapaz abandonara at a faculdade de Medicina, s para persegui-la. Mas embora no se aproximasse, 
ficando na sombra, escondido atrs de uma rvore ou muro, no importava: ela sabia que ele estava l.
Quantas vezes, fora de hora, o telefone tocava. Atendia, nenhuma voz respondia do outro lado do fio. Ivanira, porm, tinha certeza absoluta: era Raul.
Sentia-se sufocada, um rato na ratoeira; como se jamais pudesse escapar daquilo. A me notou a tristeza, as olheiras fundas, fez um comentrio. Miravan, seu irmo, 
muito ligado a Ivanira, tambm perguntou:
 Tudo bem com voc, mana? No tenho visto o Raul, ultimamente. Vocs brigaram?
Ivanira disse que terminara o namoro, e no queria mais tocar nesse assunto. Temia que, sabendo do ocorrido, Miravan procurasse Raul, fizesse alguma besteira. O 
irmo era meio estourado.
Com os amigos, contudo, e principalmente com Jos Francisco, ela se abria, falando da angstia que a dominava. O rapaz, ponderado por natureza, estava apreensivo:
        O que ser que esse doido est pretendendo? Ser que voc no devia ir  polcia pedir proteo?
        E voc acha que a polcia pode dar proteo a todas as pessoas que se sentem ameaadas? Ainda mais que ele no me fez nada...
         Ainda, n?  replicou Jos Francisco.  Mas quem garante que no faa?
Na ocasio, estavam conversando na porta da escola. Um carro passou devagar... e a luz dos faris bateu em cheio no rosto dos dois. Logo deu para perceber: era Raul. 
Rodeando o quarteiro  furtivo como sempre , caador  espreita da caa!
        Ai, meu Deus!  suspirou Ivanira.  Ser que no me livro mais dele?
        Calma  consolou o amigo, ele mesmo assustado.  A gente vai ter de dar um jeito nisso.
        Que jeito, Francisco? O cara pirou de vez.
        Ser que tudo isso  paixo?
        Pois desse tipo de paixo quero distncia  disse Ivanira.  Isso j virou  loucura!
O carro de Raul vinha voltando, tornou a passar em frente da escola. Dessa vez parou a poucos metros de distncia. O rapaz ps a cabea pra fora da janela:
 Isso no vai ficar assim, no, Ivanira. Se voc no for minha, no vai ser de mais ningum  gritou.
Os pneus cantaram quando ele acelerou, virando a curva logo adiante. Ivanira e Jos Francisco se encararam, mudos. A coisa estava ficando fora de controle.
Foi quando Lindaiane se juntou a eles, mais a Zuleide. Lindaiane estava feliz da vida. Dona Carmem era um amor de patroa, mais passeavam que outra coisa. A Aparecida 
preparava toda tarde um lanche para a garota ir  escola. Pudera: s as trs naquela casa. Dona Carmem tinha um filho nico, casado, que aparecia de vez em quando, 
nos fins de semana, quando Lindaiane no trabalhava. Ainda no cruzara com ele.
Quanto  Zuleide, estava irredutvel. Ia posar mesmo para o tal fotgrafo. Jos Francisco sugeriu de ele ir junto com ela, na tal sesso de fotos.
        Pirou, seu?  foi a reao da garota.  Voc quer que ele pense que sou uma tonta que precisa andar com irmo a tiracolo?
        Mas no sou seu irmo, sou seu amigo  argumentou o rapaz.
        Pior ainda  rebateu Zuleide.  Vai parecer que tenho medo de ir sozinha. J sou bem crescidinha, no sou?
        Olhe, Zuleide  falou Ivanira.  Disse e repito. Para mim isso  armao. Voc nem conhece o cara, e boca aceita qualquer palavra,  como papel. E se ele 
for um psicopata?
        Ele no  nenhum serial killer.  Zuleide caiu na risada.  Voc t vendo muito filme de TV, V.
         J disse que no gosto que me chame de V.
         T legal, voc t vendo muito filme de TV, I-va-ni-ra  disse Zuleide.  Vou l amanh mesmo sem falta. Depois eu conto tudo pra vocs.


Saiu pisando duro. Lindaiane ainda comentou:
        Ela pode se dar mal, gente. Ser que a dona Lourdes sabe dessa histria?
 A me dela? Duvido que saiba  disse Jos Francisco.  Alguma vez a Zuleide contou alguma coisa em casa? A coitada da me dela s fica costurando dia e noite, 
nem sabe da filha.
        E no somos ns que vamos abrir a boca  disse Ivanira.  Se a Zuleide quer assim...
        Quem era aquele carinha de carro que passou vrias vezes por aqui?  perguntou Lindaiane.
        No reconheceu o carro? Adivinhe, que eu dou um doce...
        Credo, no me diga que  o Raul de novo?
 Ele mesmo. Estou ficando apavorada. Nem comentei nada em casa para no deixar o pessoal preocupado.
        Pomba!  reagiu Lindaiane, lembrando a cena terrvel do escritrio.  Quando no  com uma  com a outra. A gente parece que tem carma, p! Ser que no 
podemos nos relacionar com gente normal, como todo mundo?
        Eu sou normal  brincou Jos Francisco.
        Voc a gente v como irmo, no como homem...
        Pois eu sou muito homem, posso lhe garantir.
        No foi isso que a Lindaiane quis dizer  apaziguou Ivanira.   que a gente gosta tanto de voc que at parece que voc  nosso irmo...
        Sei  murmurou o rapaz, ainda contrariado.  Ser que, para parecer homem de verdade, a gente tem de ser cafajeste, p!? No pode ser uma pessoa sensvel, 
capaz de ser amigo de uma garota?
        No s pode como deve!  disse Lindaiane.  Voc  meio quieto e no se mete em brigas por bobagem... mas eu tenho mais medo dos quietos, sabe? Quando eles 
explodem,  pra valer! Tipo vulco adormecido.
        Voc t me saindo uma boa psicloga  disse Jos Francisco.  Sabe que  verdade? Eu demoro pra perder as estribeiras, mas tambm, quando perco, sai de 
perto: viro bicho!
 Pois mesmo correndo esse risco, eu acho voc superlegal. Adoraria ter mais amigos homens, mas parece que eles s pensam numa coisa...
        Transar  completou Ivanira.
        Pelo menos comigo  assim  garantiu Lindaiane.  Ser bonita s vezes pesa, sabia? Tem dias que eu daria tudo para ser meio feinha pra ningum olhar pra 
mim e pensar sacanagem...
        Feinha, ?  gozou o amigo.  T pagando pra ver. Assuma, Lin, voc adora ser bonita, ter os homens a seus ps. Voc t precisando  arrumar um namorado, 
menina!
        Estou  espera do homem ideal, isso sim. s vezes, penso que beleza de mais assusta as pessoas.
        No a mim. Estou vacinado contra toda essa sua beleza, gatinha.
        Ah, ? Pois agora me deu uma baita curiosidade: me conte, vai, qual  o seu tipo ertico, Chico?
O garoto tentou desconversar, mas as amigas caram no p dele. Ele teve de confessar:
        Olha, eu t gamado numa garota que, outro dia, entrou l na loja do meu pai. Furou um pneu do carro dela, um carro novinho, importado. E ela pediu pra 
algum ajud-la a trocar o pneu...
        Adivinhe quem trocou  disse Ivanira, piscando para Lindaiane.
        Eu prprio!  confirmou o rapaz.  Enquanto isso, rolou o maior papo. Ela tinha olhos azuis e covinhas no rosto. Vocs vo saber agora o meu segredo: eu 
me amarro numa gata fofinha.
        Ts brincando  riu Lindaiane, que parecia uma deusa, corpo perfeito, nem uma gordurinha a mais ou a menos.
 Juro!  Jos Francisco parecia empolgado.  Jamais esquecerei aqueles olhos azuis e aquelas covinhas. Garanto que ela tem covinhas tambm nos joelhos.
 Xi!, o rapaz gamou mesmo  disse Ivanira.  E onde mora essa Vnus de Milo, gordinha e de covinhas espalhadas pelo corpo?
 Eu que sei?  suspirou o rapaz.  Mas garanto pra vocs! Se o meu caminho cruzar de novo com o dela, eu me derreto. Acho que encontrei a mulher da minha vida!
        O ltimo dos romnticos!  Lindaiane abraou o amigo.  Troca o pneu de uma gordinha e fica perdidamente apaixonado. Magrinho do jeito que voc , vo fazer 
uma boa dupla: a gorda e o magro.
        Desencarne, Lin  disse o rapaz, rindo.  Gamei e pronto. Foi maravilhoso e fulminante: paixo  primeira vista.



Zuleide
S
aiu mais cedo da loja, deu uma desculpa qualquer. Tinha marcado s trs com o fotgrafo. O estdio ficava numa galeria no centro da cidade. Numa sacola de plstico 
ps a melhor roupa, mais o estojo de maquiagem. Logo de manh lavara a cabea, fizera uma escova para que o cabelo ficasse do jeito que ela gostava.
Dentro do nibus ia sonhando... poxa, se o cara fizesse mesmo o tal... book!, essa era a bendita palavra. J imaginou? Ela em todas as fotos, maravilhosa, como uma 
deusa? Sabia que no era bonita como a Lindaiane, o cmulo da perfeio. Quando fizera a amiga, a natureza caprichara como uma doceira fazendo doce, seguindo religiosamente 
a receita. Nada a mais ou a menos, tudo no seu devido lugar.
Se no era bonita assim, ela, Zuleide, caa de charme: andar de pantera; cabelos lindos, at o meio da cintura, feito uma cachoeira; magra, silhueta de modelo; tudo 
nela era longo: pernas, pescoo, sempre fora bem mais alta do que as amigas. Poderia at, se quisesse, jogar num time de basquete ou vlei, esportes que ela adorava 
e nos quais no fazia feio. Tambm no era nada modesta  e da?
O nibus parou de supeto. Desceu, emocionada, as pernas bambas. Tomara que desse certo, o rapaz parecia to legal! Era sua chance na vida de realizar o seu grande 
sonho: ser uma top model!
Na galeria, que parecia recm-inaugurada, havia um constante vaivm de gente, como fileiras de formigas. O elevador no parava no primeiro andar. Subiu as escadas 
a galope e logo achou a sala do fotgrafo.
Bateu de leve na porta. Demorou alguns segundos, o prprio veio atender, daquele jeito dele: jeans de griffe, tnis importado. Os olhos estavam terrivelmente vermelhos.
        Oi  disse ele surpreso.  Voc veio mesmo, hein?
        Claro que vim!  disse Zuleide.  A gente no combinou? Ou voc prefere que eu volte outro dia?
        No, hoje est timo!  replicou o outro abrindo a porta.  Entre, mas no repare na baguna.
Assim que Zuleide entrou, uma garota mais ou menos da sua idade, os olhos tambm vermelhos, passou por eles:
        Tchau, Dick, passo aqui depois...
        Olha, no quero incomodar, se voc est ocupado...  disse Zuleide, meio sem graa.
        Fica fria, gata,  s uma amiga; a gente tava jogando
conversa fora...
Zuleide aspirou o ar do estdio. O cheiro forte, tal qual um incenso adocicado, no deixava dvidas:
 Puxaram bagulho firme aqui dentro, hein?  comentou.
Dick fez cara de sonso:
        Ah, , foi sim. Cheirinho bom, n?
        Meio enjoativo, mas deixa pra l. No  da minha conta. Quando  que a gente comea?
        A hora que voc quiser  disse Dick.
        Onde eu posso me trocar?  perguntou Zuleide, excitada. Seus melhores sonhos estavam se tornando realidade: ali estava ela, num estdio, preparando-se para 
fazer fotos artsticas.
        Ali atrs daquela cortina.  Apontou Dick, caindo sentado sobre umas almofadas.  Se apronta, gata, que logo entro em ao.
Zuleide no esperou segunda ordem; foi para trs da cortina e trocou de roupa: ps seu melhor vestido de festa. Tinha um espelho na parede. Ela se maquiou, penteou 
e repenteou os cabelos. Olhou-se de frente, de lado, de costas, quase torceu o pescoo. Quando achou que estava pronta, apareceu:
 Que tal estou Dick?
Largado sobre as almofadas, como um jacar dormindo ao sol, o rapaz murmurou:
        Lindrrima, gatssima. D um tempo que j comeo. Voc vai gostar.
        Eles  que tm de gostar. Mas que cheiro... t me deixando at meio tonta...  insistiu Zuleide.
 Esquece, relaxa, seno mela tudo, gata.
Zuleide se aproximou do Dick, preocupada:
 Cara, voc t legal? T me parecendo mais pra l do que pra c...
O outro caiu na gargalhada:
 Pois t mesmo, espertinha. Quer puxar um baseado tambm, gostosa? Da a gente transa numa boa...
Zuleide recuou:
        Vim aqui para tirar fotografias, esqueceu? Se voc se droga, o problema  seu. No tenho nada a ver com isso.
        Corta essa  continuou o outro.  Vai dizer que voc acreditou mesmo? Tava na cara que era s uma cantada de mestre, n? Ou voc acha mesmo que parece uma 
top model?
        Mas que idiota que eu sou!  Zuleide deu um tapa na prpria testa.  Ca que nem uma otria. Bem que a turma me avisou.
        Que turma? A turminha da periferia, gata?  riu o outro.  Voc devia ainda estar muito feliz de ter um carinha assim como eu querendo transar com voc. 
J se olhou no espelho?
 J  disse Zuleide.  E me acho muito legal. E voc, quem pensa que ? S porque tem este estdio, nesta galeria metida a besta? Pensando bem, essa roupa de griffe 
que voc usa, esses tnis importados, foi tudo comprado mesmo ou ser que ...
No acabou a frase. Dick avanou sobre ela, tapou-lhe a boca:
 Calada, calada, aqui quem manda agora sou eu. Vem c, vem, minha deusa de subrbio, que vou te mostrar o que  bom...
Num salto, agarrou Zuleide, que lutou como uma fera; se debateu, unhou toda a cara do Dick. Mas o rapaz era forte, muito maior que ela. Alm de que no tinha o menor 
escrpulo de usar violncia: esbofeteou-a diversas vezes.
Em desespero, Zuleide agarrou uma tesoura que estava no cho... Mas Dick foi mais rpido: enfurecido, torceu-lhe o brao, fazendo com que a tesoura casse. Ento, 
como se estivesse vivendo um terrvel pesadelo... ela sentiu que era, finalmente, dominada. Ainda quis gritar, mas o grito ficou preso na garganta. Aos seus ouvidos 
chegavam os sons da galeria, pessoas indo e vindo, apressadas, ignorando o drama que se passava ali dentro...
Lindaiane, de volta do trabalho, resolveu dar uma passada em casa, antes da escola, preocupada com o irmo que estava sozinho. Nem bem abriu a porta da rua, Lcio 
apareceu assustado:
 A Zuleide t a, e eu t morrendo de medo porque ela t toda machucada.
Lindaiane correu para a sala. Nem acreditou no que viu: encolhida no sof, coberta com um cobertor, ainda assim a amiga tremia, como se tivesse maleita. O rosto 
tinha hematomas e os olhos estavam inchados de tanto chorar.
 Que foi que aconteceu, Zuleide?  perguntou Lindaiane, espantada.
        Foi aquele maldito, o Dick  murmurou a outra.
        Dick, que Dick?  Aproximou-se do sof. Zuleide tirou uma das mos de baixo do cobertor e agarrou Lindaiane:
        O fotgrafo, no lembra? O que ia tirar fotos minhas para eu comear a carreira de modelo.
        Ele fez isso? Misericrdia! Me conte tudo. Sua me j sabe disso?
        Vim direto pra c, a sorte  que o Lcio me abriu a porta... no podia aparecer assim em casa, a me tinha um troo. Aquele maldito me atraiu para o estdio 
dele. Quando cheguei estava drogado, e ento  a ltima frase saiu entre soluos  ele me violentou!
Lindaiane ficou esttica, sem poder acreditar. Finalmente falou, revoltada:
 Bem que avisei, amiga, voc  to crdula, confia no primeiro cara que lhe promete coisas... a gente precisa ir  polcia, ele tem de pagar pelo que fez...
Zuleide estremeceu no sof:
 Nem pensar. J imaginou a vergonha? Numa delegacia, com homens me interrogando? Eu no ia agentar...
        Mas tem as Delegacias de Defesa da Mulher  animou Lindaiane.  Foram criadas justamente para ajudar as mulheres, principalmente numa situao como essa. 
No podemos deixar um estuprador  solta, para atacar outra garota como fez com voc.
        Mas nem sei se ele me deu o nome verdadeiro, se o
estdio  dele mesmo. Apesar do carto.
        Mas lembra bem da cara dele, no lembra? E do endereo tambm?
        Da cara dele eu no vou esquecer nunca na vida!  Zuleide rangeu os dentes.  E o endereo est guardado dentro da minha bolsa.
 Ento  continuou Lindaiane , se ningum denunciar um crime desses, j imaginou que maravilha para o criminoso? Sai atacando por a, a torto e a direito, e ningum 
faz nada para impedi-lo, por vergonha ou medo...
         o que eu estou sentindo agora  disse Zuleide.  Vergonha e medo, uma sensao horrvel! Eu no acredito que isso esteja acontecendo comigo...
        Calma, amiga  animou Lindaiane , eu estou aqui, para o que der e vier. Por favor, vamos at a Delegacia da Mulher dar queixa desse indivduo. Ele no 
pode ficar impune!
Depois de muita conversa, finalmente Zuleide concordou:
        T legal! Eu t mesmo morta de dio desse cara. Vamos l! Voc sabe onde fica a Delegacia da Mulher mais prxima?
        Vou procurar na lista telefnica,  s um instante. E vou mandar chamar o Jos Francisco tambm, ele j deve estar na escola.  melhor ele ir junto com 
a gente pra dar uma fora.
Avisado do ocorrido, por intermdio de Lcio, o rapaz veio logo em seguida, assustado. Quando viu o estado de Zuleide, no se conteve:
 Mas que covardia, meu Deus, como um homem pode fazer uma coisa dessas com uma mulher?

Zuleide recomeou a chorar:
 Bem que voc queria me acompanhar; por que no concordei?
Ele tentou acalm-la:
 Agora no adianta voc se culpar, amiga. Vai ficar tudo bem, tenha calma. Voc no est sozinha nisso. Ns vamos ajudar em tudo.
Quem nunca entrou numa Delegacia da Mulher, nem pode imaginar o movimento: mulheres de todas as idades e condies sociais que sofreram, na grande maioria, alguma 
violncia fsica dos namorados, companheiros ou maridos. Ali, pelo menos, podem se abrir com mais tranqilidade, desabafar toda a humilhao da qual foram vtimas.
A dra. Valria, delegada titular da Delegacia da Mulher procurada pelos garotos, e sua equipe, acostumadas ao trato dirio com vtimas de violncia, procuravam deix-las 
 vontade, sem constrangimentos.
Amparada pelos amigos, Zuleide contou o que lhe acontecera. Mostrou o carto, com o endereo do estdio de Dick, nome presumvel do fotgrafo. Foi minuciosa em todos 
os detalhes. A escriv registrou tudo no Boletim de Ocorrncia, o chamado BO. Depois entregou-lhe uma requisio para o exame de corpo de delito no Instituto Mdico 
Legal, o IML. Sem entender direito o que era tudo aquilo, Zuleide pediu para falar  delegada, no que foi prontamente atendida.
 Voc tem de fazer esse exame de corpo de delito para comprovar o fato criminoso  explicou a delegada.
        No tem outro jeito?  perguntou Zuleide, meio arrependida de ter ido. Mas um toque de Lindaiane no seu brao restituiu-lhe a coragem.
        Fique tranqila  continuou a dra. Valria.  H mdicas de planto no IML. Sem esse exame no teremos as provas materiais do crime. Voc no quer que esse 
indivduo fique impune, quer?
        De jeito nenhum  garantiu Zuleide.  Pelo menos no ir fazer isso com outra idiota como eu.
 O importante  obter, o mais rpido possvel, o laudo do IML. O resto deixe por minha conta. S que, como voc  menor de idade, preciso da presena do seu pai 
aqui, para poder instaurar o inqurito.
        No tenho pai, s me  disse Zuleide.  E ela nem sabe disso ainda.
        Ento ela precisa vir aqui urgente  disse a dra. Valria.  Parece que tem alguma coisa errada acontecen do com garotas como voc... me e filha deveriam 
ser mais amigas, no?
        Coitada da minha me, no sai daquela mquina de costura  argumentou a garota.  Como a senhora ainda queria que ela soubesse de tudo o que eu fao?
  a luta pela vida, doutora  emendou Jos Francisco.  Os jovens, muitas vezes, tm de se virar por si mesmos, quando os pais esto ausentes, trabalhando... mas 
entre ns, amigos, a gente se ajuda muito.
 Pelo menos isso  falou a delegada.  Mas imagino o susto que sua me vai levar. Procure conversar mais com ela, entrem num dilogo daqui por diante...
        No vim aqui pedir sermo  rebateu Zuleide, agastada.  Vim pedir justia. Quero aquele desgraado enjaulado como besta que ele .
        Me respeite, porque estou respeitando voc, s quero ajud-la.  A delegada, muito sria, assinou o BO e a requisio para o exame de corpo de delito.  
Aqui esto: faa a sua parte que do suspeito cuido eu.
        Mas ele no  suspeito, foi ele mesmo!  garantiu Zuleide.
        At o laudo chegar comprovando o fato criminoso, ele ainda  suspeito  disse a delegada.
        Mas o que esse exame vai provar, afinal?  insistiu Zuleide, nervosa.
        Oua  a delegada olhou bem para a garota  sua frente: O exame de corpo de delito  uma percia mdica, quer dizer, um exame mdico; no seu caso, principalmente, 
ginecolgico. Ele vai comprovar se houve uma conjuno carnal forada. Na polcia, e no Direito em geral, no trabalhamos com hipteses; trabalhamos com fatos e 
provas desses fatos. Voc no tem nenhuma testemunha do fato, ento o exame  a nica prova de que poderemos dispor.
 E a minha palavra no conta nada, doutora?  explodiu Zuleide.
 Conta, claro, minha filha. Mas suponhamos que o tal Dick negue o fato. Ser a sua palavra contra a dele. Por isso precisamos de provas. Caso contrrio, qualquer 
pessoa poderia chegar aqui e inventar que um desafeto cometeu um crime.
Que dia! Ir ao IML fazer o exame de corpo de delito; voltar para a casa da Zuleide e pr a me dela a par dos acontecimentos. Foi uma barra. Jos Francisco e Lindaiane 
no sabiam se acudiam a me ou a filha, porque ambas puseram-se a chorar, convulsivamente.
Zuleide  ainda muito abalada  reteve os amigos at que, exausta, caiu no sono. Como j era tarde, o rapaz acompanhou Lindaiane at o porto da casa dela. A garota 
convidou:
 Entre pra tomar um lanche, a gente ainda nem jantou.
 Aceito  disse ele.  Ser que a dona Jussara j chegou?
Lindaiane acendeu as luzes da sala:
 Pelo jeito, ainda no. O Lcio, como sempre, ficou sozinho. Deve estar vendo TV l no quarto.
Foram para a cozinha. Lindaiane comeou a preparar uns sanduches.
 Ainda bem que a gente achou a Delegacia da Mulher ainda aberta, hein?  comentou.  Voc viu a placa? Funciona de segunda a sexta-feira. Como ser que fica a mulher 
que for agredida no final da semana?
 Ouvi uma policial falando sobre isso, enquanto vocs batiam o BO  disse Jos Francisco.  A Delegacia da Mulher do Centro no fecha nunca, fica aberta 24 horas 
por dia, inclusive nos fins de semana. L h cinco equipes de planto permanente.
 Ainda bem, voc viu o movimento?  Lindaiane ps os sanduches sobre a mesa.  Mas, c entre ns, como  que a Zuleide pde cair numa cilada dessas? Sabe que no 
me conformo? Aquele sonho de ser top model no deixa ela raciocinar direito.
Jos Francisco, sem querer, estremeceu:
 Ela vai ter de encarar, no tem outro jeito. Deus permita que, pelo menos, no fique grvida, nem pegue alguma doena. Estou apavorado com essas possibilidades...
Lindaiane bateu na madeira da mesa:
 Vire essa boca pra l, credo! Vamos comer, que estou morta. Quando cair na cama, acho que vou desmaiar de tanto cansao.
        Pois eu acho que nem vou conseguir dormir. Se no bastasse a Zuleide, tambm tem a Ivanira. Ela est num apuro danado.
        Por causa do Raul?  Lindaiane deu uma dentada no sanduche.
        Aquele cara  louco, Lin. Vigia a garota o dia inteiro. Acho que nem na faculdade ele vai mais. Morro de medo que ele faa uma loucura!
        Besteira. Cachorro que late no morde.
        s vezes morde sim  rebateu o rapaz.  A gente precisa ficar de olho nela. Ainda bem que contigo anda tudo legal.
        Nem acredito  confirmou a garota.  L na casa da dona Carmem  o maior sossego. S que hoje ela estava falando com o filho, no telefone, e me pareceu 
preocupada. Acho que o casamento dele no anda legal. A Aparecida me falou, muito em segredo, que ele e a mulher vo se separar.
Estavam entretidos com a conversa, nem viram Lcio, que chegava na cozinha, meio tonto de sono:
        T com fome.
        Venha lanchar com a gente  convidou Lindaiane. O garoto se aproximou e a irm o abraou, carinhosamente.  No pude nem ficar um pouco com voc, e a me 
tambm no voltou, me desculpe, t?
        T acostumado  disse o garoto, agarrando um sanduche.




Jos Francisco
L
 do balco, olhou a rua: se ela voltasse, a gordinha de olhos azuis e covinhas no rosto. Nem sabia o nome da garota, s que era extre-mamente simptica e gentil. 
Devia ser rica, com aquele carro importado. Era areia de mais para o seu caminhozinho. Parara ali na loja de armarinhos do bairro apenas porque o pneu do carro 
furara e ela precisava de ajuda. Possivelmente, nunca mais a veria. Que pena!
O telefone tocou, atendeu. Uma voz feminina perguntou se faziam entrega a domiclio. No era comum um pedido desses, mas enfim... se valesse a pena. A pessoa do 
outro lado do fio fez uma encomenda grande. De olho na comisso que o pai sempre lhe dava, Francisco concordou de ele mesmo ir entregar a mercadoria, mesmo porque, 
alm do pai e ele, s havia a funcionria do caixa, que no podia deixar o seu posto...
Avisou o pai, preparou o pacote e a nota fiscal, depois tomou o nibus. A casa ficava na parte alta do bairro, zona nobre. Finalmente encontrou-a. Era enorme, janelas 
brancas, e um jardim bem-cuidado. Tocou a campainha. Logo uma empregada uniformizada veio atender. Disse o seu nome e a que viera. A empregada olhou-o, desconfiada:
        Espere a no porto que vou saber se isso  verdade.
        O endereo est correto.  Mostrou o papel para a moa.  Foi daqui mesmo que fizeram o pedido.
        S se foi a Amanda, eu  que no fui  disse a moa.  Espere a que j volto.
A casa era rodeada por altas grades. Encostado nelas, o rapaz se perguntava se no teria sido um trote e estava fazendo papel de bobo. Uma casa to chique! Provavelmente 
a moradora faria compras numa loja de shopping, nunca numa loja modesta como a de seu pai, que o chamaria de otrio, na melhor das hipteses. Em perder a pacincia, 
o pai era especialista. Ainda mais com ele, o caula e nico filho a trabalhar na loja.
A empregada j vinha voltando, com cara de quem no entendera nada.
 Foi daqui sim que fizeram o pedido, pode entrar que a Amanda paga voc. Nem sei por que ela est mandando voc entrar, eu mesma podia lhe dar o cheque.
Entrou ressabiado. Um carro estava parado na garagem, reconheceu-o no ato. O corao comeou a bater fora de ritmo, quando entrou no vestbulo. Sorridente, um brilho 
maroto nos olhos azuis, Amanda o esperava:
 Espantado? Lembra-se de mim? Fui eu quem fez a encomenda.
 Claro que lembro!  respondeu, atrapalhado.  Mas voc podia ao menos ter-se identificado.
 No me lembro de ter-lhe dito meu nome. E quis surpreend-lo. No fique parado a na porta, venha sentar.
        A sua encomenda.  Estendeu o pacote, sentindo-se meio bobo.  No precisava de nada disso, no ?
        De nadinha  confirmou a garota.  Mas era um jeito da gente poder conversar  vontade. Resolvi arriscar. L na loja o seu pai no ia dar sossego, no ?
        No  riu Jos Francisco, acompanhando a garota at a sala.
        Maria, faz um suco pra gente, faz?  pediu Amanda para a empregada, que, ressabiada, ainda comentou:
        Seus pais no vo gostar nada disso.
        Deixe de ser boba, ele  s um amigo que me ajudou outro dia. Faz o suco, t, por favor!
A empregada foi para a cozinha resmungando, e Amanda sentou-se ao lado do rapaz.
        Voc deve estar me achando meio louca, no ?
        Para falar a verdade, estou sim  confirmou Jos Francisco.  Sabe que eu estava pensando justamente em voc quando o telefone tocou? Que nem sabia o seu 
nome nem nada... agora isso pelo menos eu sei.
        Gostei muito do seu jeito  disse Amanda.  Os poucos instantes que passamos juntos foram suficientes para que eu quisesse v-lo novamente. Sou assim mesmo, 
atirada. Ento bolei este plano. Est zangado comigo?
        Claro que no!  Jos Francisco esboou um sorriso. Zangado no era a palavra exata: ele estava meio assustado. E se os pais da garota chegassem de supeto? 
Que desculpa daria? Eram at capazes de pensar que fosse um assaltante, ainda mais nos dias de hoje, quando as pessoas tm medo at da prpria sombra.  Por que 
voc me chamou aqui, afinal?
        Nossa, voc  sempre tmido desse jeito?  perguntou Amanda, rindo.  Porque gostei de voc, j disse, isso assusta voc?
        Nem um pouco, j estou bem crescidinho  mentiu.
 Pois ento relaxe, vamos bater um papo legal.
Maria j vinha voltando com o suco de maracuj, que deixou sobre a mesinha.
 No parei de pensar em voc desde aquele dia  continuou Amanda.  Ento falei pra mim mesma: por que no atra-lo aqui? Com uma boa desculpa, claro!
        S que o meu pai j creditou esta compra e vai me comer vivo se eu voltar com tudo isso de novo pra loja.
        No se preocupe  Amanda aproximou-se mais um pouco , eu compro tudo. Afinal fui eu quem encomendou isso. Minha av gosta de costurar... eu prefiro voc!
Jos Francisco se queimou:
        Olhe, Amanda, tudo bem, se voc quiser comprar, mas tem uma coisa... confesso que gostei muito de voc tambm e queria rev-la, mas no sou um pacote que 
voc encomenda pelo telefone. Eu no estou  venda,  bom voc saber disso!
        Calma a  falou Amanda, sria.  Quem disse isso? No ponha palavras na minha boca. Gostei de voc, queria v-lo de novo. Que mal h nisso?
         que no estou me sentindo legal na sua casa. Seus pais podem aparecer a qualquer momento e o que  que eu digo pra eles?
        Que  meu namorado.
Jos Francisco at engasgou com o suco:
        Falar o qu?
        Que  meu namorado  repetiu Amanda.  Voc quer, no quer?
        Se eu quero?  Quase que o rapaz se belisca para ver se no estava sonhando.  Para falar a verdade, Amanda, eu quero muito! Parece at impossvel, hoje 
em dia, mas eu me apaixonei por voc  primeira vista!
        Pois ento... se meus pais chegarem, eu apresento voc como meu namorado. Sabe, eu no costumo namorar a srio, eu costumo  ficar, quando estou ligada 
em algum. Mas, dessa vez, bateu um clima maravilhoso... vamos deixar rolar pra ver no que d...
        Voc  meio estranha  falou Jos Francisco.  Me d at um pouco de medo. Se voc costuma s ficar com os garotos, por que comigo seria diferente? Eu gostaria 
que voc tambm estivesse apaixonada por mim...
        Como diz minha av, devagar com o andor, querido... Talvez eu tenha medo de me apaixonar, me entregar por inteira... Sabe, meu pai  um advogado famoso. 
Cobra uma nota por um parecer jurdico. E a minha me no fica atrs:  uma psicloga superconhecida.
        E o que tem isso a ver com o fato de voc ter medo de se apaixonar? Confesso que no entendi  disse Jos Francisco.
        Tem muito, sim  disse Amanda.  Mas deixa pra l. Com o tempo voc vai entender... Vamos falar de coisa legal: pretendo estudar Direito, ser uma advogada 
como papai.
        Ah, ? Tambm quero estudar Direito. Mas no para ser advogado. Quero prestar concurso para a magistratura: ser um juiz de direito.
        Pois voc vai ficar lindo de juiz, de toga e tudo  suspirou Amanda.  S falta mesmo um cachimbo, daqueles de raiz de roseira que meu pai usa... sabe 
que voc  um charme? Eu acertei o seu nome ao telefone?  Francisco, no ?
        Voc  demais, gata!  comentou o garoto.  Me atrai para a sua casa, me pede em namoro e s agora se lembra de perguntar se Francisco  mesmo o meu nome. 
Voc existe mesmo ou  sonho, garota?
 Espero ser garota dos seus sonhos. Isso se voc no se importar de eu ser meio gordinha. Sabe, tenho um baita complexo por causa disso.
Impressionado com a sinceridade de Amanda, o rapaz apressou-se em responder:
        Quanto a isso fique sossegada. Eu me amarro nas gordinhas.  Disfaradamente olhou para as pernas de Amanda, bem  mostra dentro dos shorts; gol de cabea: 
ali estavam as covinhas nos joelhos.
        Voc me desculpe mas tenho de voltar para a loja  disse ele, tentando manter a cabea bem no lugar.
        E como  que a gente fica?
        Como voc quiser. Voc me ganhou, garota, com essa loucura toda. Nunca que ia imaginar uma coisa dessas...
 Voc ainda no viu nada  disse Amanda.  Te ligo amanh pra gente se encontrar. Me d um beijo?
Enquanto ele decidia o que fazer, Amanda agiu: lascou-lhe o maior beijo. Ainda sem respirao, ele se escutou dizendo:
        Me liga, t, t esperando...
        Claro que ligo, fofura!  garantiu Amanda, acompanhando-o at a porta. L da cozinha, Maria espiava tudo, encafifada: amigo, hein?


Na volta para a loja, Jos Francisco se beliscou vrias vezes: no era sonho, era realidade. Amanda existia  uau!  e agora era sua namorada. Com olhos azuis, covinhas 
no rosto e nos joelhos. Apesar de meio enigmtica, era tudo o que ele pedira a Deus.
Por falar em Deus... ela se esquecera de pagar a encomenda. Voltar l s pra isso, nem pensar. Pacincia: amanh, com certeza, acertaria tudo. Ia ter de inventar 
uma boa desculpa para o pai. Hoje, provavelmente, era o seu dia D.
No dia seguinte, porm, Amanda ligou, como o combinado. Encontraram-se e a garota pagou a encomenda, que alvio! Seno o salrio dele  que cobriria a encomenda, 
pois o pai no brincava em servio.
O namoro pegou firme, para espanto da rua inteira e alegria das trs amigas, que at ficaram um pouco enciumadas; mas a felicidade do Jos Francisco era tanta, 
que valia a pena dividir o amigo com a namorada.
Amanda era uma garota simples e comunicativa. Logo fez amizade com as trs garotas, Lindaiane, Ivanira e Zuleide. Esta ainda estava profundamente abalada com o ocorrido, 
traumatizada mesmo. Quando soube do fato, Amanda ofereceu:
        Qualquer coisa que precise, meu pai  advogado, pode auxiliar voc...
        Estou apavorada  desabafou Zuleide.  Um estupro parece que no pra... continua... E se eu fiquei grvida? E se peguei alguma doena, como a Aids, por 
exemplo? Assim como ele fumava maconha, podia se drogar, com droga injetvel... que horror!
Amanda ficou comovida:
 Sabe que eu nunca pensei nisso... que um estupro continua, por causa das suas conseqncias? Voc tem de ser forte, Zuleide...
Os olhos da garota se encheram de lgrimas:
 E voc pensa que no tento, com todas as minhas foras? Levar uma vida normal... como antes? Mas preciso esperar mais alguns dias para saber se no fiquei grvida 
desse maldito estupro... depois fazer outros exames, para saber se no peguei nenhuma doena... voc pode sequer imaginar como me sinto? Isso me enlouquece! Durmo 
mal, tenho pesadelos... parece que esse tormento nunca vai acabar...
Amanda insistiu:
 Francisco tem meu telefone, qualquer coisa me ligue, Zuleide. No caso de estar grvida, vai precisar mesmo de um advogado e...
        Pelo amor de Deus, eu agradeo muito, mas vamos mudar de assunto, t legal? Tenho rezado tanto que voc nem imagina! O que eu no daria para que isso no 
passasse de um pesadelo, apenas isso...
        Vai dar tudo certo, calma  consolou Amanda.  Agora voc tem mais uma amiga.
"Que garota legal", pensou Zuleide. Mal a conhecera e j queria ajud-la. Das duas, uma: ou ela era legal mesmo e se sensibilizara com o ocorrido, ou estava muito 
apaixonada pelo Jos Francisco e queria mostrar servio. E, por que no, as duas coisas?
Jos Francisco tambm se perguntava: como uma garota atraente como Amanda  menina rica, filha de advogado famoso, morando naquela casa, com carro importado  fora 
se interessar por ele? Garoto tmido, pobre e sem grandes encantos fsicos? Tanto pensou que resolveu perguntar para a prpria:
 Me diga, gatinha, o que voc viu em mim?
Amanda riu:
 Pois eu lhe digo, meu amor: sensibilidade, sinceridade, fidelidade e por a...
 Voc  uma contradio, Amanda. Primeiro me disse que s costuma ficar, de repente, quer um namoro srio, e fica falando a em sinceridade, fidelidade... O que 
voc espera de mim, afinal? At parece que voc est me pedindo em casamento...
Amanda ficou sria de repente:
        Deixa eu explicar melhor: eu s tenho ficado, com muitos garotos... s que cansei disso, desse troca-troca sem fim, d pra entender? Agora estou querendo 
viver uma paixo, um grande amor, s pra ver como  isso... e voc se encaixa direitinho no meu ideal de homem... H muito tempo procurava algum como voc.
        Que massagem no meu ego  riu tambm o rapaz.  Vou ficar convencido e da voc no me agenta mais.
        Sei que voc no  disso. Eu no devia dizer, mas te acho superlegal.
Estavam nesse papo, na casa de Amanda, quando, de repente, apareceu o pai da garota. Conversou alguns instantes, depois pediu:
        D pra voc vir um instante at o meu escritrio, Jos Francisco? Quero dar uma palavrinha em particular, com voc...
        Que  isso, papi?  estranhou Amanda.  A gente t aqui num papo legal e...
        Estou esperando voc, no demore  disse o pai, dirigindo-se a Jos Francisco e ignorando o comentrio da filha. Depois foi para o escritrio, que ficava 
nos fundos da casa.
 J esperava por isso, at que demorou  comentou o rapaz.
        Esperava por qu?
        Ora, Amanda. Voc acha que ele ia ficar calado, vendo a filha namorando um rapaz pobre, filho de dono de armarinho do bairro? Claro que ele quer saber se 
estou a fim de dar o golpe do ba na filha dele.
        E est?  Amanda olhou bem dentro dos olhos do
rapaz. Seus olhos azuis cintilavam.
        Talvez  brincou ele.  Voc nem devia fazer essa pergunta, sabia? Primeiro porque me ofende; segundo porque se d pouco valor; e terceiro: voc no acredita 
que algum possa am-la pelo que voc ? Independente do que seu pai seja ou tenha?
        Sabe  Amanda suspirou , fica meio difcil, s vezes. No sou nenhum modelo de beleza e tenho plena conscincia disso. Meu pai  famoso e rico. J imaginou 
quantos rapazes sonham em ser advogados assim como meu pai? E como se tornaria fcil para um deles realizar esse
sonho... casando comigo?
        Quem est pensando em casamento, v com calma, gata! A gente nem bem comeou a namorar... Mas, se te deixa mais tranqila, posso lhe garantir uma coisa: 
se seu pai  famoso e rico, para mim no faz a menor diferena.
 Ele acha que faz, por isso convidou-o a ir ao escritrio. Se prepare que ele  duro na queda.
 Pois vou resolver isso agora mesmo  disse o rapaz, levantando-se para ir ao encontro do pai de Amanda. Ele que no pensasse que poderia humilh-lo s porque era 
pobre. No ia engolir sapo de jeito nenhum; nem pelo amor da garota.
No corredor, encontrou-se com a me de Amanda, a dra. Lcia. Desde que comeara a freqentar a casa, uma empatia surgira entre ambos. Ela sorriu e deu-lhe uma piscadela, 
como se dissesse: v em frente!
Mas  para surpresa sua  o dr. Diego foi superamvel. Pediu que ele sentasse no sof elegante da sala; perguntou se ele queria um caf. Conversou sobre vrios assuntos. 
At que... finalmente, entrou no assunto. Da foi curto e grosso:
        O que exatamente voc pretende nesse relacionamento com minha filha, garoto?
        Meu nome  Jos Francisco, e estou apaixonado pela sua filha, s isso...
        Ela parece gostar muito de voc tambm.  a primeira vez que Amanda leva um relacionamento to a srio, e isso me preocupa bastante...
        No h nada para se preocupar, doutor. Ns nos apaixonamos um pelo outro e  s. E somos muito jovens ainda... temos muito tempo para decidir nossas vidas.
        Voc estuda?
        Numa escola pblica, estou no terceiro colegial. Se Deus quiser, me formo ainda este ano.
Doutor Diego continuou o interrogatrio:
 Amanda, inclusive, me disse que voc pretende estudar Direito, para depois fazer o concurso para a magistratura.
 Exatamente, doutor,  o meu maior sonho. E pretendo chegar l.
        Como?
        Ora, como: com muito estudo e perseverana; no  assim que as coisas acontecem?
        Voc pretende entrar em qual faculdade?
 De preferncia na da USP. Alm de ser uma faculdade tradicional, no precisarei pagar, o que me facilitar muito.
        Voc trabalha tambm?
        Trabalho, sim; ajudo meu pai na loja dele.
        E ganha quanto?
        Um salrio mnimo, mais comisso sobre as vendas. Como se fosse um funcionrio qualquer. Prefiro assim.
        Quer trabalhar comigo?
        Como disse?  espantou-se Jos Francisco.
        O que voc ouviu, trabalhar comigo. Preciso de um garoto esperto. Alm de aprender muito, o salrio ser razovel: eu lhe pago quatro vezes o que seu pai 
lhe paga atualmente.                
Jos Francisco respirou fundo:
 Acho que no, doutor.
Doutor Diego olhou-o de vis:
        Escutei bem? Voc no quer o emprego? Ganhando quatro vezes mais do que na loja do seu pai? Sabe quem eu sou, rapaz?
        Um dos maiores advogados do pas  disse Jos Francisco.  Agradeo muito seu convite, mas no posso aceit-lo.
 Por que no?  O espantado agora era o pai da moa.
 Por vrios motivos, doutor: meu pai precisa de mim na loja e me sinto bem l; o senhor  pai de Amanda, e no me sentiria bem aqui, justamente por isso. Sou um 
tipo de pessoa que no gosta de receber favores porque ter que retribu-los no futuro. Isso, se o senhor me permite dizer, deixa a gente de rabo preso. Mas lhe 
agradeo muito o
convite. Agora, se me der licena, ainda tenho escola hoje.
Levantou-se, estendeu a mo. O pai de Amanda continuava surpreso. O rapaz j abrira a porta da sala, ele ainda chamou:
        Jos Francisco?
        Sim?
 Voc existe, realmente, garoto?
Jos Francisco voltou atrs:
 O que o senhor quer dizer com isso, doutor Diego? Devo tomar como um elogio ou como uma ofensa?
Doutor Diego foi explcito:
 No se ofenda, rapaz,  que me parece anormal, uma pessoa no ter ambio... afinal estou lhe oferecendo um emprego melhor... um trampolim para voc subir na vida... 
a maioria dos garotos da sua idade nem pensariam duas vezes em aceitar, e no vejo demrito nenhum nisso...
Jos Francisco olhou bem nos olhos do pai de Amanda:
 Ser que no, mesmo, doutor? Se eu aceitasse o emprego, no cairia no seu conceito? E no seria exatamente isso o que o senhor esperava de mim? Para poder dizer 
 Amanda que eu no passava de mais um carreirista, querendo subir fcil na vida... o senhor pode at achar que eu sou uma aberrao, mas prefiro ser assim... eu 
tenho muitos sonhos, confesso, sou um sonhador...
        Mas at os sonhadores precisam ter os ps no cho  disse o outro.  No podemos fugir da realidade  nossa volta.
        Pois  justamente por ter os ps no cho que no posso aceitar seu convite  revidou o garoto.  E pode ficar sossegado, doutor Diego: ningum aqui est 
pensando em casamento... como eu disse, somos muito jovens ainda, o futuro, s Deus sabe...
Doutor Diego levantou-se, estendeu a mo para Jos Francisco:
 Agora eu sei por que a Amanda vive dizendo que voc  especial. E quer saber de uma coisa, rapaz? Isso me deixa mais preocupado ainda!
Mais tarde, na escola, Jos Francisco comentou, com as amigas, a conversa que tivera com o pai de Amanda. Elas foram unnimes: ele tomara a melhor deciso. No ia 
ser uma boa ser empregado do pai da namorada. E, pelo visto, o cara era desconfiado, se julgava o rei do mundo. Mais uma razo para no dar certo.
Jos Francisco quis saber da Zuleide onde ela fora to apressada logo pela manh, em companhia da me. A garota  que ainda trazia no rosto as marcas da violncia 
 contou que a polcia no conseguira achar o fotgrafo em parte alguma. Ele tomara rumo ignorado. Ento a chamaram l no DEIC para tentar reconhecer o estuprador 
no lbum de fotos de pessoas procuradas pela justia.
 E como foi?  O rapaz estava curioso.
 No era nenhum deles. Ento pediram que eu fizesse um retrato falado do Dick. O desenhista da polcia reproduziu direitinho a cara daquele miservel, uma perfeio. 
Agora vo mandar o retrato para os jornais. Com um pouco de sorte algum vai reconhec-lo e avisar a polcia. Da podem levantar a ficha policial dele, e saber se 
est limpo ou j cometeu crime semelhante.
 Sabe o que eu li outro dia?  disse o garoto.  J existe um computador que faz esses retratos falados, em minutos... s h um no Brasil, por causa do preo; uma 
fortuna... a maioria dos pases j est adotando essa tcnica...
        Pois o desenhista de que falei foi fantstico  continuou Zuleide , em meia hora ele fez o tal retrato-falado, que me deu at arrepios, de to perfeito...
        Sabe no que eu me amarro?  disse o garoto.  Na tcnica do DNA que serve para descobrir criminosos ou ento provar que o cara acusado  inocente. Vocs 
viram o caso do homem que passou nove anos no corredor da morte, nos Estados Unidos, e foi absolvido por um exame
do DNA do esperma encontrado na roupa da vtima, uma garotinha? O exame provou que ele no poderia ser o estuprador. Essa tcnica tambm j chegou ao Brasil, mas 
 carssima.
        S sei que, com DNA ou sem ele, quero aquele calhorda na cadeia. Alis, nem precisa exame nenhum, porque foi ele mesmo.
Enquanto Zuleide trocava idias com o amigo, Lindaiane observava Ivanira. Tinha achado a amiga to calada a noite inteira. Ento perguntou:
        Aconteceu alguma coisa com voc?
        T apavorada. O Raul ligou pra casa ontem  noite. Disse que, se eu no voltar para ele, vai fazer uma loucura...
Jos Francisco entrou na conversa:
        Vamos  polcia.
        J discutimos isso; no vai adiantar nada.
        Mas custa voc tentar? Eu ficaria mais tranqilo se voc fizesse isso  insistiu o rapaz.
        T legal  concordou finalmente Ivanira.  Amanh a gente v isso.
No dia seguinte, Ivanira, junto com o amigo, dirigiu-se  Delegacia da Mulher, onde deu queixa da ameaa feita por Raul. Foi batido um boletim de ocorrncia. E a 
delegada disse que, se o rapaz voltasse a ameaar Ivanira, ela o intimaria a ir at a delegacia.
 noite, novamente na escola, estavam comentando a ida  delegacia, quando Lindaiane chegou com jeito desanimado:
        Acho que acabou o meu sossego, gente... O filho da dona Carmem se separou mesmo da mulher e veio de mala e cuia para a casa da me. No fui com a cara do 
tal sujeito. T achando que vai sobrar pra mim, como sempre.
        Isso t virando parania, Lin  criticou Jos Francisco.  Afinal ele te cantou? S porque um homem se aproxima de voc no significa que tenha ms intenes.
        Tomara fosse parania minha, mas eu conheo o tipo, Chico  desabafou Lindaiane.   galinha de tudo. Veio logo com uma conversinha de que conhece diretores 
de hospitais e, se eu quiser um emprego legal, ele me apresenta a eles. Que possui muita influncia e por a...
        O que ele faz, afinal?  quis saber Zuleide.
        Acho que  representante comercial de um laboratrio, uma multinacional. A Aparecida comentou que foi essa galinhagem dele toda que estragou o casamento, 
a mulher se encheu e pediu a separao.
 Ento ele t te cantando, mesmo, amiga. Isso  assdio sexual dos mais vulgares  comentou Ivanira.
Zuleide ouvia a conversa, calada. Desde aquele dia fatdico, o do estupro, ela vivia mais triste que outra coisa. Estava custando a se reanimar. Sempre pensativa, 
como se estivesse em outra dimenso. Os colegas faziam de tudo para ajud-la, mas respeitavam seu sofrimento ntimo. Era uma questo de tempo.
 nimo, Zu!  Jos Francisco passou o brao carinhosamente sobre os ombros da garota.  A vida continua... no fim tudo vai dar certo, voc vai ver.
 T difcil, Chico, muito difcil  desabafou Zuleide.  Aquele dia no me sai da cabea. Sinto um dio mortal por aquele sujeito. Ele no tinha o direito de fazer 
aquilo comigo. Eu no sou um objeto, uma coisa descartvel: sou um ser humano. O pior vem depois: o medo da gravidez, o pavor de ter pegado alguma doena. Desculpe 
eu estar falando sempre nisso... mas eu no desejo esse inferno nem para o meu pior inimigo...
        Calma, calma.  O rapaz abraou-a mais forte.  Tenha coragem, a gente t com voc pro que der e vier... t fazendo os exames todos?
        A Ivanira me deu a maior fora  explicou Zuleide.  Falou com o doutor Otvio, que por sorte  ginecologista. Ele est me orientando nos testes que eu 
devo fazer: gravidez, Aids, etc.
 O doutor Otvio ficou muito sensibilizado com o que aconteceu com a Zuleide  completou Ivanira.  Est at empenhado em conseguir uma terapia gratuita para ela 
no hospital onde ele trabalha.
        Puxa, que legal!  disse o rapaz.  Eu estava pensando mesmo que isso seria o ideal pra voc, Zuleide: conversar com um psiclogo. Ele iria ajud-la muito.
        Acho que sim  concordou a garota.  O doutor Otvio est sendo muito gentil. Nem sei o que faria sem a ajuda dele. Eu estaria completamente perdida... 
uma confuso na minha cabea. S sei uma coisa: no estou mais disposta a pagar certos preos... muito menos a passar de novo por todo esse tormento...
        Assim  que eu gosto de ver!  Jos Francisco deu um beijo carinhoso na amiga.  Corajosa, sempre... Isso tudo vai passar... Vamos torcer para que todos 
os exames dem negativo...
        Deus te oua, Chico!  suspirou Zuleide.  Deus te oua!
L fora, Raul dava voltas e voltas em torno do quarteiro da escola, como um caador esperando sua presa...



Lindaiane & Ivanira
L
indaiane chegou cedo na casa da patroa justamente porque precisava sair mais cedo. Tinha de ir ao hospital onde a me trabalhava; ela lhe conseguira uma consulta. 
Desde criana, ela sofria de sinusite.
Estava tomando caf na cozinha com a Aparecida, quando apareceu Jader, filho da dona Carmem. Sentou-se ao lado das duas, sorrindo:
        Tudo bem, Linda?
        Meu nome  Lindaiane.
        V se deixa a menina em paz  pediu Aparecida.
        Que foi, esto as duas contra mim esta manh? Que foi que eu fiz?  falou Jader, indulgente.
Lindaiane ficou em silncio. No fosse dona Carmem aparecer por ali. Era perigoso abrir o jogo, pelo menos para ela. Fez de conta que no ouviu. Aparecida, por sua 
vez, limitou-se a olhar feio para Jader. Mas logo sua ateno foi despertada pelo caminho de gs, e ela saiu para comprar um novo botijo.
A ss, na cozinha, com Lindaiane, Jader no perdeu tempo:
 Escute, Linda, quando  que voc vai sair comigo? A gente pode fazer um programa legal. Voc volta  mesma hora para sua casa e ningum precisa saber de nada.
Lindaiane ficou vermelha de raiva:
        Olhe, seu Jader, no  porque trabalho aqui que o senhor pode ir tomando essa liberdade toda comigo. O senhor  um homem casado, poxa!
        Descasado e logo mais divorciado, minha linda. O que tem de mais a gente sair junto?
        Eu no quero sair com o senhor, s isso.
        E pare de me chamar de senhor que pareo um velho; tenho s trinta anos, sacou?
        Para mim tanto faz. E, se o senhor me der licena, estou preocupada com a sua me. Ela nunca sai sozinha.
 Ela foi s ali na vizinha que  costureira experimentar uma roupa. Quanto a ns, minha linda, como  que a gente fica?
        No fica  disse Lindaiane.  Me deixe em paz, seno vou ser obrigada a contar tudo para a sua me e...
        Ah, ?  Jader levantou-se da cadeira, os olhos brilhantes. Arrancou o relgio de pulso, agitou-o no ar:
        T vendo esta belezoca aqui?  um rolex legtimo e de ouro, querida; foi do meu pai e minha me me deu. Sabe o que eu posso fazer, sabe? Colocar este rolex 
na sua bolsa e dizer que voc roubou l do meu quarto. Adivinhe em quem a mame e a polcia vo acreditar, hein? Se voc no for boazinha comigo, pode arrumar uma 
encrenca bem grande para o seu lado.
Lindaiane ficou branca de dio:
        Seu miservel! Ia ter coragem de fazer isso?
        Ah, se ia, minha flor!  bom voc ir pensando na possibilidade de sair comigo, porque seno...
        Seno o qu?  Soou uma voz atrs dele. Jader virou-se, espantado, deu com Aparecida, que voltara, o troco ainda na mo.  Ser que eu ouvi bem, Jader? 
Nunca pensei que um menino que eu criei pudesse agir dessa forma. Deixe a Lindaiane em paz ou eu conto tudo para sua me...
        O que  que voc me conta?  Dessa vez era dona Carmem que entrara na cozinha e pegara o fim da conversa.
Por um instante, ficaram todos em silncio, como imagem congelada de TV. Lindaiane recuperou-se primeiro:
        No vai dar mais para trabalhar aqui com a senhora; se puder acertar comigo, estou indo embora agora mesmo.
        Primeiro vocs vo me explicar direitinho o que est acontecendo por aqui  disse a senhora.  Por que voc estava ralhando com o Jader, Aparecida?
Aparecida ficou confusa. Trabalhava na casa havia trinta anos. Vira Jader nascer. Sabia que, se dissesse o que se passara na cozinha, na ausncia da patroa, ela 
teria a maior decepo da sua vida. J no chegava a tristeza da separao do filho, causada pelas sucessivas infidelidades dele; tambm a ausncia dos netos, pois 
a ex-nora pretendia mudar-se de So Paulo para uma cidade do interior, onde viviam os pais dela. Mais essa agora...
Por outro lado... essa menina, Lindaiane, era uma boa garota. Fizera tanto bem  velha patroa, levando-a a passear no shopping, ao banco, ao correio. Devolvera-lhe 
a sensao de ser til. E, caso no fosse tudo muito bem explicado, Lindaiane iria embora, definitivamente. Mas, mesmo que tudo fosse esclarecido, ela ficaria? 
Valeria a pena destruir o mnimo respeito que a me ainda nutria pelo seu filho nico?
Aparecida olhou para Lindaiane, os olhares das duas se cruzaram. No fundo do olhar da garota, Aparecida leu toda a indignao e humilhao de que estava possuda. 
Sairia como pessoa irresponsvel, que no pra nos empregos, enquanto Jader continuaria posando de bom-carter, coisa que, definitivamente, ele jamais fora. Ento 
se decidiu:
 Dona Carmem, escute. A Lindaiane est se despedindo porque o Jader anda importunando ela, quer que ela saia com ele...
A velha senhora fulminou o filho com o olhar:
         verdade isso que a Aparecida est dizendo, Jader?
        A Aparecida t ficando maluca, me  disse o outro tentando parecer natural.
Dona Carmem virou-se para Lindaiane:
        Voc confirma o que a Aparecida acaba de me dizer?
        Confirmo, sim, senhora. Inclusive ele me ameaou agora mesmo de colocar o rolex de ouro na minha bolsa, aquele que a senhora deu para ele depois que seu 
marido morreu, s para me incriminar caso eu no concordasse em sair com ele.
Dona Carmem olhou para o filho, espantada:
        Voc fez isso, Jader? Pelo amor de Deus, diga que  mentira!
        Claro que  mentira, me, uma mentira deslavada dessa piranha a!
        Mentira coisa nenhuma!  retrucou Aparecida.  Estava chegando quando ouvi o Jader dizer que, se a Lindaiane no sasse com ele, ia inventar o roubo do 
relgio; at chamar a polcia para prender ela...
        Aparecida continua mentindo, esto as duas contra mim  gritou Jader.  A senhora acredita mais em duas empregadas do que em seu prprio filho?
        Pra falar a verdade, acredito, sim  disse a me.  A Aparecida eu conheo h trinta anos, ela nunca mentiu. Depois, como  que a Lindaiane ia saber que 
o relgio era do seu pai? Eu nunca lhe contei isso! Obviamente foi voc mesmo quem contou.
 Dona Carmem, por favor, no fique nervosa!  pediu Lindaiane.  J estou indo embora, no vai haver mais problemas por aqui.
 No vai, no  falou a senhora em tom enrgico.        No vai embora coisa nenhuma! Quem talvez v embora se no se comportar daqui por diante  voc, Jader. 
O fato de ser meu filho no lhe d o direito de agir como cafajeste, dentro da minha prpria casa.
Jader saiu espumando da cozinha. Aparecida ainda falou:
 Fique sossegada, Lindaiane, ele no passa disso. Foi muito mimado quando criana, pensa que o mundo todo gira em torno dele...
 E o pior  que voc tem razo  admitiu dona Carmem.  Tenho grande parcela de culpa nisso. Fiquei viva muito cedo, s com esse filho. Acho que o mimei demais, 
mas ainda est em tempo de mudar.
Lindaiane abraou-a com carinho:
 S no quero que a senhora fique nervosa com tudo isso. Olhe a sua presso...
 No estou nervosa, no, conheo meu filho de outros carnavais.  Pensa que no dou razo  minha nora de querer se separar dele? Ele ainda no cresceu,  um egosta 
que s pensa em si mesmo. Quem sabe com tudo isso aprenda alguma coisa.
 Obrigada, Aparecida  agradeceu Lindaiane.  Voc foi muito corajosa em me defender. Afinal estou aqui         apenas h meses...
 No ia poder dormir com esse peso na minha conscincia  falou a velha empregada.  A gente pode fugir de todo mundo, minha querida, mas da gente mesmo a gente 
no foge nunca. Por isso falei a verdade.
Lindaiane saiu aquela tarde da casa de dona Carmem com os pensamentos tumultuados. Apesar do triste episdio ter-se esclarecido, como ficaria sua real situao na 
casa, com Jader ainda por l?
Encontrou-se com a me no hospital e no comentou nada: ela j andava to preocupada com as despesas da casa, o salrio miservel. Numa ocasio mais oportuna lhe 
contaria o acontecido. Consultou-se com o mdico, que lhe receitou remdios para a sinusite.
J de volta, quando desceu do nibus, perto de casa, encontrou-se com Jos Francisco e Amanda, que vinham conversando pela rua.
 Vocs no imaginam o que aconteceu comigo hoje no emprego  disse Lindaiane.
Na rua mesmo contou o ocorrido. Precisava desabafar com algum. Amanda comentou:
 Minha me tem uma amiga com a qual aconteceu um fato semelhante. Foi at papai quem cuidou do caso.
        E da?  interessou-se Lindaiane.
        Isso em Direito se chama constrangimento ilegal, lembro at o artigo do cdigo penal: 146. D uma pena de deteno de trs meses a um ano, fora a multa.
        Quer dizer que o cara vai preso mesmo?  admirou-se Lindaiane.
        Preso no vai, porque, se for primrio, tiver bons antecedentes e, no caso, a pena for inferior a dois anos, ele pega sursis, que  uma suspenso provisria 
da pena.
        Ento de que adianta ser condenado?
 Adianta, sim  explicou Amanda.  Porque o indivduo fica com a ficha suja, que vai para o computador da polcia. Se brincar em servio, for condenado por um acidente 
de trnsito, por exemplo, o sursis  cancelado e da ele se ferra: tem de cumprir o restante da primeira pena mais a segunda.
 Olha que d at vontade de denunciar aquele safado. Se no fosse pela dona Carmem...
        Pois fique de olho nele  aconselhou Amanda.  Se ele voltar a te assediar, d parte dele na Delegacia de Defesa da Mulher...
        J estive l com a Zuleide e confesso que gostei muito. A delegada  superlegal. Ela  bastante jovem. E decidida que d gosto.
        Tambm estive l com a Ivanira e gostei do atendimento  confirmou o rapaz.
        Falando em delegacia, Jos Francisco, vamos ou no vamos prestar o vestibular de Direito, juntos?  lembrou Amanda.
Claro, minha flor!  O rapaz abraou-a carinhosamente.  Se o Direito j era minha paixo, imagine agora!
        Estavam nesse papo descontrado, quando viram chegar um txi, que parou bem na frente da casa de Ivanira. Dele desceu a garota, que, reconhecendo os amigos, 
fez sinal para que se aproximassem. Chegando mais perto, levaram o maior susto! Ivanira tinha o rosto desfigurado por vrios hematomas, enquanto o brao esquerdo 
pendia, parecendo fraturado.



Falando com dificuldade, a moa pediu:
 Voc tem dinheiro a, Chico? Pague o txi para mim, por favor!
Ainda apatetado, Jos Francisco correu at a loja do pai e logo voltou com o dinheiro. Quando o txi foi embora, no se conteve:
        Que fizeram com voc, Ivanira?
        Foi o Raul. Ele me pegou na sada do consultrio. A gente discutiu e ele me agrediu. Tinha gente em volta, ningum levantou um dedo para me defender. Em 
desespero, mesmo sem dinheiro, chamei um txi...
Um ataque de choro cortou suas palavras.
O que a gente faz?  Lindaiane entrou em pnico.
Amanda, mais calma, pediu:
        Cabea no lugar, gente! Seus pais esto em casa, Ivanira?
        Devem estar no trabalho.
        E seu irmo?
        Tambm. Mas no bota o Miravan nisso, que ele acaba com o Raul, e a desgraa vai ser completa.
Mas, por incrvel coincidncia, Miravan vinha justamente virando a esquina... tinha sado mais cedo do trabalho para ir a um jogo de futebol. Ao ver a irm naquele 
estado, ficou fora de si. Foi um custo Jos Francisco convenc-lo de que no adiantaria nada ir no encalo de Raul. A prioridade era levar Ivanira ao PS mais prximo 
e depois dar queixa na Delegacia da Mulher. A lei se encarregaria do resto.
 Minha nossa, a delegada vai pensar que quero morar l  comentou Lindaiane.  Em menos de um ms j estou de volta.
 E talvez volte outra vez, n?  disse Amanda.  Mas chega de papo, que a Ivanira precisa de cuidados mdicos.
Providencialmente, o carro de Amanda estava estacionado na rua, em frente da casa do namorado. A garota j tinha carta de motorista. Em poucos minutos, os quatro 
chegaram ao pronto-socorro municipal, onde Ivanira foi medicada. O brao, quebrado pelo namorado, foi engessado, e ela tomou um analgsico para a dor. Depois se 
dirigiram  Delegacia da Mulher. Estavam to nervosos que foram subindo as escadas... quando se deram conta, estavam na sala da dra. Valria.
 Voc, de novo?  estranhou a delegada, dirigindo-se  Lindaiane.
 Para a senhora ver. Primeiro foi a minha amiga Zuleide; agora  a Ivanira... o namorado agrediu ela!
A delegada levantou-se, veio em direo de Ivanira:
 Brao quebrado, hein, garota? Leso grave, com certeza.
 J estive no PS, eles confirmaram a fratura; ainda est doendo muito  gemeu Ivanira, segurando as lgrimas.
 Pois vamos rpido com isso. Vou mandar bater o BO e a requisio, e da voc segue para o IML para fazer o exame de corpo de delito. Por favor, seja o mais objetiva 
possvel, conte tudo o que aconteceu.
A raiva e a humilhao superaram a dor. Ivanira contou, em detalhes,  escriv da delegacia, o fato. Depois que a delegada assinou o BO e a requisio, Ivanira e 
os amigos decidiram que iriam no carro de Amanda at o IML.
Mas, antes de sair, Ivanira quis saber:
        O que vai acontecer com o Raul, doutora?
        O procedimento usual. Vou intim-lo a comparecer aqui, junto com voc, para acare-los. Quero que voc narre tudo o que aconteceu na minha presena, para 
no haver nenhuma dvida. Depois, com a prova material, ou seja, o laudo do exame de corpo de delito, posso concluir
o inqurito e mand-lo para a vara criminal do frum desta jurisdio.
        E ele vai preso?  perguntou Miravan. Era inconcebvel, para ele, que Raul ficasse livre.
        Como no houve flagrante, vai depender da autoridade judiciria  explicou a delegada.  Mas posso lhe adiantar que a leso corporal  prevista pelo artigo 
129 do cdigo penal. Se for leve, a pena  de deteno de trs meses a um ano; se for uma leso grave, como provavelmente ser o seu caso, a pena  de recluso de 
um a cinco anos; e, se for gravssima, obviamente a pena  maior: recluso de dois a oito anos.
Ivanira comentou:
        Quem diria... o Raul, um estudante de Medicina. Superinteligente, de tima famlia, fazer uma coisa dessas...
        Isso no significa muito  sorriu a doutora.   engano supor que s pessoas simples, de classes mais pobres, cometam crimes. Aqui vm mulheres espancadas 
de todos os nveis sociais. Mas no perca mais tempo, garota! Voc precisa fazer o exame de corpo de delito. Boa
sorte!
Os amigos, mais Miravan, saram da delegacia, enquanto a dra. Valria chamava: o prximo!  a sala de espera, abarrotada, dava bem a noo de quanto trabalho ainda 
esperava por ela, s naquele dia...
Dentro do carro, Lindaiane comentou:
        Que absurdo o que o Raul fez com o seu rosto, sem falar do seu brao, Ivanira...
        Ah! se eu pusesse as mos naquele miservel!  Miravan socou a prpria mo.
        Ainda bem que foi o brao esquerdo. A gente tem prova ainda este ms, no tem. Lindaiane?  perguntou Ivanira.
        Se no der, voc faz depois, no se preocupe com isso agora  consolou a amiga.
Dias depois, Ivanira foi conversar com o seu patro, o dr. Otvio.
 At voc ficar boa dessa fratura do brao, considere-se em licena  disse ele.  E seu salrio ser pago normalmente.
        Obrigada, doutor  agradeceu a garota.  Eu sabia que podia contar com a sua generosidade. Faz muita falta em casa o meu salrio.
        No me agradea  replicou o mdico.   seu direito isso. Lamento profundamente a atitude desse rapaz. Ele jamais dar um bom mdico. Um mdico de verdade 
faz um juramento sagrado: curar as pessoas. Jamais poderia agir dessa forma.
        Tambm penso assim  concordou Ivanira.  Soube que a famlia dele est desolada com tudo isso. De certa forma, ele estragou a vida dele.
        Ele precisa urgente de um bom tratamento psiquitrico  continuou o doutor.  Talvez ainda esteja em tempo de ele encarar a vida de outra forma. Mas, mudando 
de assunto, aproveite a sua licena para estudar para o vestibular. Ainda pretende cursar Letras, no ?
 Ah, com certeza.  o meu sonho dourado. Depois de formada, quero fazer mestrado e doutorado, seguir carreira universitria.
        Aposto em voc, Ivanira.  O mdico sorriu.  Voc  uma garota muito esforada e vai longe. Se Deus quiser, estarei na platia no dia da sua formatura.
        Que os anjos digam amm, doutor.
        Eles diro, com certeza.        



Seis meses depois
O
 tempo rolou rpido. Quando viram, j estavam no final do ano. A formatura aconteceu num clima de alegria, as famlias reunidas no auditrio da escola. Tiraram 
fotos, que guardariam com carinho. Mais uma etapa de estudos vencida.
Mais tarde, os quatro amigos resolveram se reunir na casa de Lindaiane para fazer um inventrio do ltimo ano. Amanda, que j fazia parte da turma, tambm foi convidada.
Jussara tinha planto aquela noite, mas ainda achou tempo de preparar alguns sanduches. E ps refrigerantes na geladeira.
        Fiquem  vontade  disse ela, antes de sair.  O Lcio j est dormindo.
        V sossegada, me  disse Lindaiane.
        Bom trabalho, dona Jussara  desejou Jos Francisco.
Logo aps a sada da me de Lindaiane, Amanda lembrou:
        T faltando um som, gente!
         pra j.  Jos Francisco ligou o rdio numa emissora FM.
        Que noite, hein?  Zuleide se espichou no sof.  Foi bacana, no foi?
        Foi demais  concordou Ivanira.  At agora conseguimos. O futuro dir se vamos realizar todos os nossos sonhos.
        Eu, com certeza  replicou Zuleide, j bem mais recuperada do trauma aps a terapia.  Algum dia serei uma top model pra l de famosa. Para isso preciso 
de um book legal.
        Tenho uma surpresa pra voc!  Jos Francisco sorriu matreiro.
 Surpresa! Pelo amor de Deus, Chiquinho, conte!
O garoto fez suspense, mas acabou entregando:
        Meu irmo mais velho comeou a trabalhar num estdio de fotografias. Eu pedi a ele para apresentar voc ao chefe dele. Quem sabe pinta alguma oportunidade...
        Ai, meus santos!  Zuleide quase caiu do sof.  Voc no existe, Chico, eu vou te beijar...
        Devagar com o andor, que este santo  meu  disse Amanda.
         que o Chiquinho  demais, ele mora no meu corao. Ser que o fotgrafo  famoso mesmo?
        Fique fria  disse o rapaz.  Ainda  s uma tentativa. Mas pode dar certo. Pelo menos desta vez, voc estar lidando com gente sria, sem correr perigo...
        S eu sei o que me custou tudo isso  falou Zuleide.  O pavor de ter ficado grvida, de ter contrado alguma doena... se no fosse o apoio de todos vocs 
e do doutor Otvio, que me arrumou um psiclogo, no sei se teria suportado...
        Voc fez tudo que foi exame, no ?  comentou Amanda.
 Teste de gravidez, de Aids, o doutor Otvio no quis correr nenhum risco. Mas meu anjo-da-guarda no me abandonou de todo, no. S deu uma cochiladinha. Os testes 
foram todos negativos!  como se eu nascesse de novo depois desses resultados.
 Voc acredita mesmo em anjos?  riu Amanda.  Ou est falando s por metfora?
Zuleide ficou sria:
         Claro que acredito! Os anjos esto  nossa volta, constantemente.  s pedir a ajuda deles, numa dificuldade. Vov sempre falava que cada pessoa tem um 
anjo-da-guarda . Sempre achei bonita essa histria. Tenho lido muito sobre os anjos... Espero que o meu seja gatssimo, de olhos azuis e cabelos at os ombros, todo 
vestido de dourado...
        E de brinco na orelha que nem o garoto que tava l na formatura hoje?
        O Fbio?  Zuleide at revirou os olhos:  Ele no  lindo? Estou ligadssima, gente, acho que, depois de tudo o que eu passei, bem que mereo ter encontrado 
o homem da minha vida!
        At a semana que vem ou at o comeo do ms?  arreliou Ivanira.
 No enche, V, voc vive cortando o meu prazer.  J disse que no gosto que me chame de V.  que voc, minha querida amiga,  mais rpida que chuva de vero. 
Faz muito barulho e passa logo.
        Da, flor? Eu sou assim; me apaixono  primeira vista. Como disse o Chico,  maravilhoso, fulminante! Depois, sabe como , como disse Vincius: "infinito 
enquanto dure"... o que  que eu posso fazer?
        Pois eu penso diferente  falou Lindaiane.  Quero um amor to grande, mas to grande que dure a vida inteira e mais duraria, "se no fora para to longo 
amor to curta a vida...".
        Mulher!  Zuleide abriu a boca de espanto.  T me lembrando... isso  de um poema de Cames, no ? Que a professora recitou outro dia na aula. O que fala 
do amor de Jacob pela Raquel.
        Eu me amarrei nesse poema  disse Lindaiane.   a coisa mais linda que j ouvi na vida.
        Voc leva jeito para poesia, Lin?  perguntou Jos Francisco.
        Posso confessar um segredo? Vocs juram que no contam para ningum? Eu tenho umas trezentas poesias aqui em casa.... j enchi vrios cadernos. Escrevo 
de madrugada, ponho todos os meus demnios para fora...
        E como vo indo os seus demnios, Lin?  insistiu o amigo.
Lindaiane sorriu:
 Vo bem, obrigada. Como diz a dona Carmem, estou conseguindo exorciz-los.
        Minha nossa!  Zuleide at pulou do sof.  Isso quer dizer que a boneca a superou os seus traumas e aprendeu a lidar com os garotes? Conte tudo, que 
estou seca para saber.
         que aconteceu uma coisa superlegal comigo, outro dia...
        E voc nem contou nada, sua traidora.
 Faz s uma semana, Zu! E com a correria da formatura at esqueci de contar,
        Corte essa, Lin  interveio Amanda.  Voc estava querendo curtir sozinha, numa boa, afinal era o que voc tanto queria, no ?
        Era, sim, Amanda, o meu sonho especial: encontrar algum que me achasse bonita, claro, mas olhasse tambm para dentro dos meus olhos, procurando minha alma, 
meu jeito de ser...
        E encontrou esse algum?  Ivanira sentou-se ao lado dela.  Encontrou, amiga?
Os olhos de Lindaiane at brilharam:
 Acho que encontrei.  um rapaz simples, cinco anos mais velho do que eu, bancrio. A gente se conheceu porque eu levo sempre a dona Carmem  agncia onde ele trabalha. 
Ele ligou pensando que eu fosse neta dela...
 Conte direitinho essa histria  Zuleide estava adorando tudo aquilo.
 No tem muita coisa, no  continuou Lindaiane.  Ele ligou pedindo para falar com a senhorita que costuma ir com a av ao banco toda tarde...
 Ele disse senhorita? Cus, no acredito!  Zuleide at rolou no tapete.
        Que  que tem? Ele  supereducado. A gente se falou um tempo no telefone, a dona Carmem deu a maior fora. Depois ela me disse que gostava muito do Lus, 
que j o conhecia faz tempo, e que a gente fazia um casal muito bonito.
        O nome dele  Lus...  Ivanira continuava entusiasmada com a histria.
        No dia seguinte a gente se encontrou e conversou pessoalmente. Ele me disse que ficou to encantado comigo que falou para ele mesmo: " agora ou nunca, 
vou ligar pra casa dela, tomara que ela atenda ao telefone!".








        V devagar, amiga  pediu Jos Francisco.  No quero ser desmancha-prazer, mas boca aceita tudo.
        Ah, ?  Amanda entrou na conversa.  Qual a garantia que eu tenho de que voc tambm no  um conquistador barato que est tentando seduzir uma garota 
indefesa como eu?
        Indefesa?  O rapaz e as outras garotas at caram na risada.  Pois foi voc, sua peste, quem me atraiu para sua casa, com aquele falso pedido de compras.
        Sabe o que a Amanda me lembra?  falou Zuleide, como sempre muito despachada.  A Scarlett O' Hara de ... E o vento levou... danada da peste!
        Credo, gente!  Amanda fingiu estar ofendida.   isso que vocs pensam de mim, ? Que eu sou uma manipuladora como a Scarlett?
        Mdio  disse Zuleide.  Mas que voc controla bem a o seu bichinho de estimao, controla.
        Eu no sou bichinho de estimao, coisa nenhuma!  reagiu o garoto.
        Essa conversa ainda vai feder  interveio Ivanira.  O que voc tem com isso, Zuleide? Se eles se entendem, o problema  deles. Cuide da sua vida, garota, 
que voc j faz muito.
        Desculpe, gente  falou Zuleide, meio sem graa , eu no tive a inteno...
        Tudo bem  Amanda se levantou.  A gente ta mesmo fazendo um jogo da verdade, no est? Pois eu lhe digo, Zuleide, que gosto do Jos Francisco e muito, 
mas do meu jeito. Ele sabe disso.
        E eu tambm gosto muito de voc, Amanda, e tambm do meu prprio jeito  replicou o rapaz.  E estamos nos dando muito bem. O que os outros pensam no estou 
nem a. Eles podem at achar que estou querendo dar o golpe do ba  e da?
        E est?  Zuleide foi curta e grossa.
 No  disse Chico.  Porque me amarro na Amanda, sinceramente. Eu acho ela linda, uma gostosura de garota!
        Ai, meus sais!  Amanda at revirou os olhos.  E eu que me matava de complexo, achando que era gorda...
         que o Chico a nasceu no sculo errado  riu Lindaiane.  Ele parece aqueles pintores romnticos que s retratavam mulheres gordinhas, cheias de dobrinhas...
        Tambm no exagere, n, Lin  disse Zuleide.  A Amanda  s fofinha...
        Gostosa!  disse Chico.  O amor mais gostoso do mundo!
        Voc mudou, hein, Chiquinho?  Ivanira caiu na risada.  Que foi que voc fez para deixar Chico com essa corda toda, hein, Amanda?
        Segredo!  Amanda ps um dedo sobre os lbios.  A receita eu no conto para ningum.
        Minha nossa!  riu Ivanira.  Confesso que estou morta de curiosidade. Que receita, boa, hein?
        Como diria a Aparecida, benza a Deus!  comentou Lindaiane.  Quanto a mim, gente, confesso que estou gamadssima. O Lus  uma graa! Qualquer dia eu trago 
ele aqui para vocs o conhecerem.
        Mudando um pouco de assunto  disse Amanda , sabe uma coisa que eu estava querendo comentar? Gostei demais daquela deciso do juiz, quanto ao Raul, depois 
da condenao...
        Sabe que eu tambm?  concordou Ivanira.  Um ano trabalhando na ala de acidentados daquele hospital pblico, convivendo com tanta dor, acho que vai servir 
ao Raul pra alguma coisa. Muito melhor do que ficar trancafiado numa cela. J superei meu dio por ele. No vale a pena. S quero esquecer tudo isso...
        E falando nos brutos... o tal do Dick, nunca mais acharam ele, n?  comentou Lindaiane.
        Aquele tomou rumo ignorado e, apesar do retrato-falado publicado nos jornais, ainda no foi encontrado  disse Zuleide.  Mas a polcia me disse que  s 
questo de tempo, qualquer hora apanham ele.
        Estupro  uma coisa terrvel, foi muito oportuna a lei que o transformou em crime hediondo. No seu caso, o cara pode pegar de seis a dez anos...  disse 
Amanda.
 Algum dia ainda vou ter o gostinho de ir  polcia reconhec-lo  disse Zuleide.  Se depender de mim, ele no ficar impune.
 Tempo!  interveio Jos Francisco.  Chega de falar em tristezas; hoje  dia de muita alegria! Vamos brindar, gente! O ano que passou pode ter sido difcil, mas 
este aqui, novinho em folha, ser de muita esperana!
Lindaiane trouxe os refrigerantes. Alegremente, todos ergueram os copos:
        Que todos os nossos sonhos se realizem!  disse
Zuleide.
        Que a nossa amizade jamais acabe!  disse Ivanira.
        Que o verdadeiro amor seja para sempre!  disse Lindaiane.
        Ao futuro juiz de direito!  lembrou Amanda.
 A uma garota muito especial!  disse Jos Francisco.
Alvoroados e felizes, saram para o pequeno jardim diante da casa. Se olhassem para o cu no veriam as estrelas, encobertas pela poluio. Mas isso no tinha a 
menor importncia: eles sabiam que elas estavam l!...
